segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

DE TUMORES, DE RATOS... E DO EVANGELHO FALSIFICADO!

Pode parecer que o título acima seja inadequado para um artigo teológico. O que é que Deus tem a ver com tumores e ratos? Bem... antes de continuar a leitura deste texto vá até a Bíblia. Sim, aquela que está esquecida em uma prateleira. Aquela que quase não é lida. Eu posso esperar... vá, pegue-a. Agora abra em I Samuel 6:1-9. Leia com atenção. Já fez isso? Bom, muito bom.  Mas, não basta. Antes de continuar a leitura deste artigo, por favor, leia agora os capítulos 4 e 5 de I Samuel para entender o que foi que aconteceu.  Leu? Que Deus o abençoe. Agora pode continuar a ler este artigo. Não leu? Não quer ler? Então, por favor, não continue a ler este.   Bem, se você está a ler agora, significa que leu o texto bíblico.  Então, em frente!

Israel saiu à guerra contra os filisteus. O pecado grassava nas hostes israelitas. A desobediência era latente. Deus havia sido deixado de lado.  A religião era puramente de aparência e hipócrita. Apenas um amuleto esperando as benesses de Deus. Religião de aparência! No primeiro enfrentamento quatro mil mortes (4:1-11). Logo vem a interrogação: Por que nos derrotou o Senhor? Pergunta hipócrita de uma religiosidade hipócrita de uma religião de aparência. Ora, Israel sabia que todas as suas derrotas eram consequências da quebra das Leis de Deus. Já devia ter aprendido isso.

Foi aí que surgiu a genial ideia: Vamos levar a Arca da Aliança. Pensaram que Deus se veria obrigado a salvá-los por amor à Arca. A “Arca da Aliança” foi utilizada como amuleto. Israel fez da Arca um talismã, um fetiche. Acreditava mais na aparência do que no Deus da Aliança.  Assim fazem muitos hoje. Acham que por apenas lerem a Bíblia, ou carregá-la, ou “assistir” aos cultos, ou serem dizimistas que Deus se vê obrigado a dar vitória.  Ledo engano de uma religião de aparência. O resultado foi uma cruel derrota para os filisteus e a morte de trinta mil soldados.

Muito pior foi que a Arca foi roubada pelos Filisteus. Depositaram-na no templo do seu deus Dagom. A ARCA era símbolo da presença de Deus. Era, para os Israelitas, a garantia da morada de Deus com eles. Todavia, não entendiam, ou não queriam entender, que a Arca era símbolo da presença e não a presença. A presença de Deus dependeria de que o povo andasse na verdade e compromissado com Ele... não metidos com ídolos pagãos. A segurança estava na certeza de que Deus estaria satisfeito com as ações desse povo.

Da mesma forma, a segurança de que Deus anda e protege o Seu povo hoje, está no fato de Ele estar satisfeito com Seus filhos e não no fato de haver uma “igreja” bonita, um “púlpito” eloquente ou um povo que “faz barulho” em nome de Deus; nem mesmo que participe da “marcha para Jesus”, que hoje é tudo... menos “Marcha para Jesus”. Fidelidade é tudo. Os “crentes” hebreus não resistiram à influência da idolatria; assim como os “crentes” hodiernos não resistem à influência do meio social e cultural em que vivem. A maioria dos cristãos dos dias atuais tem ídolos: cantores “gospel” (nem sabe o que isso significa); artistas da TV; jogadores do seu esporte preferido; figuras políticas e, o que é pior, seus líderes “espirituais” (pastores, bispos, apóstolos (sic) e quejandos).  Andam por caminhos ínvios... não pelos caminhos da cruz de Cristo.

Por confiarem no “poder da Arca”, símbolo da presença de Deus, os israelitas sofreram retumbante derrota. A vergonha foi ainda maior. A derrota de Israel... era a derrota do seu Deus diante de Dagom, o  “deus” filisteu. A igreja, o templo, a Bíblia, o líder, como amuletos; de nada valem na hora cruel dos ataques satânicos. Fidelidade pessoal a Deus é tudo que importa. E isso é pessoal.

Que lição preciosa Deus estava dando ao Seu povo Israel. Que lições Deus continua a dar àquele que se diz Seu povo hoje.  Pena que, quase sempre, a Bíblia é lida de forma superficial. Não se “nada mais em águas profundas”. A superficialidade grassa.  Mas, se Deus estava dando preciosa lição para Israel e posteridade cristã... também a daria aos agressores de Israel e do próprio Deus. Com Deus não se brinca. Dele não se zomba.  Aparentemente o Deus dos israelitas estava aprisionado, derrotado. A Arca, símbolo da Sua presença santa fora levada cativa.

A Arca é instalada dentro do templo de Dagom, ao lado da estátua deste (5:1-5). No dia seguinte a Arca está no mesmo lugar, mas a estátua de Dagom está estatelada com a “cara no chão”, diante da Arca do Senhor! Deus não suporta a idolatria. Só Ele é Deus. “Não terás outros deuses além de mim” (Êxodo 20:3 NVI). Dagom foi levantado e colocado no seu lugar. Dia seguinte Dagom foi encontrado, novamente, caído por terra. Desta feita com cabeça e mãos quebradas... corpo, cabeça, mãos, todos prostrados diante da Arca do Senhor. Jeová, e tão somente Ele, é Deus! E ponto final!

Deus começou demonstrando quem é o verdadeiro Senhor. Arrasou o “deus” filisteu, despedaçando-o em sua própria casa. Por pressão, a Arca peregrina por cinco cidades dos filisteus. O texto bíblico informa que, por onde a Arca passava, a população sofria com tumores e, possivelmente, peste bubônica, oriunda de ratos em excesso que surgiram ao passar do precioso símbolo da presença do Deus de Israel. A Arca, símbolo de proteção e bênção divina para Israel, transforma-se em maldição e doença para o agressor. Apenas o símbolo da presença de Deus, transformou-se em horror para toda uma nação. Com Deus não se brinca. E, a maioria dos cristãos modernos, continua “brincando” de ser “filhos de Deus”.

Há quem não suporte a presença de Deus. Ele é santo. Santidade não combina com pecado, com hipocrisia, com religião de aparência.  Por isso, os sacerdotes de Dagom deram “sábio” conselho: devolvam a Arca. Mas resolveram tentar “enganar” a Deus. Como se isso fosse possível. A devolução deve ser acrescida de presentes. Um carro novo dotado de um cofre com cinco tumores de ouro puro e mais cinco ratos, também de ouro. Achavam que o que Deus queria eram ofertas, oferendas de valor. Ledo engano. Deus é o dono de tudo, inclusive do ouro e da prata. Deus não precisa de presentes. O que Ele quer – e sempre foi assim – é a fidelidade dos seus filhos. O que Ele quer é o coração, o desejo, a vontade; para que seja servido... por amor (Provérbios 23:26). E toda Sua vontade está exarada na Sua Palavra, a Bíblia. E em nenhum outro lugar. Não está nas profecias (ou profetadas) modernas; nem nas “revelações” satânicas (é isso mesmo, satânicas) sem qualquer respaldo bíblico. Toda vontade de Deus está revelada na Bíblia.

Não posso deixar de fazer aqui, algumas reflexões importantes, diante do descalabro teológico que tenho visto grassar igrejas e “tevês” afora. Não tenho qualquer intenção de agradar quem quer que seja. Só quero agradar ao meu Deus.  Infelizmente a igreja cristã moderna, na sua maioria, está descaracterizada. Há a urgência de uma reforma por dentro. Algumas lições sobre o texto em apreço são necessárias.

Os sacerdotes (religiosos) filisteus devolveram a Arca sobre “carros novos”.  Não é isso que tem acontecido com a maioria dos “religiosos” (sic) conhecidos? Por acaso o “evangelho” que é transmitido não é feito sobre “carros novos”? Deus instruíra a Israel como devia ser carregada a Arca. Tinha que ir sobre os ombros e ombros especiais: dos levitas, separados especialmente para essa missão. Nunca sobre “carros novos”. Deus não aceita acréscimos ao Evangelho de Jesus. O Evangelho não pode ser falsificado, adulterado, envenenado. Deus não aceita o “carro novo” de inovações humanas. Jesus - e o Seu Evangelho -, é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13:8).

O Evangelho “carro novo” tem conduzido milhares pela “porta larga” da perdição, da catarse emocional, do barulho, do prazer, da riqueza, da felicidade nas coisas materiais. Foi o próprio Senhor Jesus – não o do carro novo – quem disse: “... e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim” (Mateus 10:38 NVI). Leia também Mateus 16:24-28. Com Deus não existe barganha. Hoje as pessoas não renunciam a si mesmas. Lamentável!

Mas a genialidade dos sacerdotes (religiosos) filisteus vai ainda mais longe. Não bastava carro novo. Era preciso um cofre seguro; afinal, ninguém podia roubar. Dentro dele dez peças de ouro puro: cinco réplicas de tumores e cinco réplicas de ratos... tudo de ouro. Coisas esdrúxulas, estranhas, nauseabundas.  Para que Deus quereria isso? Isso é falta de conhecimento de Deus.

Mas, pergunto: o que vejo no “evangelho” pregado hoje? O que é que vejo na televisão? O que vejo nos “louvorzões”? O que vejo nos “encontros com Deus”? O que vejo nas “marchas para Jesus”? O que vejo nos programas “gospel”? O que vejo na maioria das mensagens pregadas nos púlpitos modernos? Meu Deus... o que é que vejo? Vejo coisas estranhas, esdrúxulas! Vejo tumores e ratos por todo lado. E o pior de tudo é que esses programas, mensagens e cultos “tumores” e “ratos” parecem que estão conduzindo a Arca... como se Deus estivesse ali.  E não está!

O que tenho visto por aí? Bem, basta querer ver. Dia desses um “bispo” diz ter ido “em espírito” até os céus. Lá, teria falado com Cristo que ordenou que o “dito cujo” pegasse uma grande vasilha com óleo e dentro gotejou um pouco do seu sangue! Pasmem! Agora, vidrinhos desse óleo contendo o sangue de Cristo seriam distribuídos aos “fiéis”. Lógico que era contra o deixar de “uma oferta voluntária”.  Aqui em Porto Velho, um determinado “bispo” de uma dessas igrejas televisivas embasado na “sua Bíblia” anunciou semana inteira que entraria, no domingo seguinte, no tanque (batistério) da sua igreja e “agitaria” as águas como fazia o anjo no tanque de Betesda (João 5). Afirmou ainda, como se Deus fosse, que todos aqueles que entrassem no tanque que ele (o bispo) tivesse entrado e agitado as águas, também seriam curados e teriam seus problemas resolvidos. Lógico que o preço seria uma “oferta voluntária”, também.

Apóstolos há – e todos sabemos disso – que vendem toalhinhas com o suor do “deus apóstolo”. Há os vidrinhos com água do Rio Jordão. Há as lascas da Arca de Noé. Há as ofertas correspondentes aos anos da vida da pessoa, em troca de promessa de prosperidade. Há a meia do apóstolo. Há o perfume consagrado na gruta abençoada. Há as sessões de descarrego com o pisar do sal grosso ungido. A lista de aberrações teológicas e demoníacas prossegue interminável: rosa ungida; lenço da cura; Leão de Judá Cola, o refrigerante; travesseiros abençoados; roupas dos parentes doentes para serem ungidas; fotografias para descarrego; problemas escritos em papéis para serem cravados na cruz ungida dentro do templo e, até, sabão ungido para lavar a roupa e limpar toda sujeira (pecado) da pessoa. Ufaaaaaaaa! Melhor parar por aqui, pois ainda há muitos e dantescos “tumores” e “ratos” para tentar enganar a Deus e ao povo incauto. Deus vai pedir contas de tanto demonismo em nome de Jesus. Hoje até já existem humanos religiosos que se intitulam “querubins”.

Essas coisas todas são amuletos.  Tornam-se idolatria. Deus não admite isso. Deus não precisa de coisas esdrúxulas.  O evangelho de Cristo é simples, direto, objetivo e transformador. É uma questão de fidelidade.  A fé verdadeira não precisa de muletas. A leitura atenta do capítulo 7 de I Samuel vai informar que o povo de Israel “buscou ao Senhor com súplicas (vs. 2)” e foi instado por Samuel a “voltar-se para o Senhor de todo coração, livrem-se então dos deuses estrangeiros e as imagens (...) consagrem-se ao Senhor e prestem culto somente a Ele, e Ele os libertará... (vs. 3)”. A seguir fizeram o que Deus queria. “Naquele dia jejuaram e ali disseram: ‘Temos pecado contra o Senhor’”.  A sequência do texto vai mostrar que “houve paz em Israel” (vs. 14).

Todas essas muletas que o “evangelho” falsificado tem provido por meio de liderança religiosa utópica, quimérica, hipócrita, mentirosa e de aparência não passam de “tumores” e “ratos” que não agradam a Deus. Apenas trazem, a seu tempo, maldição. É pecado e leva multidões ao inferno, juntamente com seus líderes religiosos que se enriquecem para a vida nababesca deste mundo. Lá diante do Senhor, no grande dia dirão: “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres? Então eu lhe direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal” (Mateus 7:22-23 NVI).

Com profunda tristeza o que se vê é o evangelho simples de Jesus ser vilipendiado nos arraiais chamados evangélicos. Só têm sobejado os tumores e os ratos... de todas as etiologias.
Encerro esta reflexão reproduzindo parte de um pequeno escrito colhido no facebook do meu amigo particular, irmão em Cristo, servo de Deus e pastor, desses poucos de boa cepa espiritual que ainda existem hoje, Pr. Jease Costa de Moraes. Ele escreveu: “Deus chora ao ver o nome do evangelho ser enxovalhado por supostos pastores, levitas que somente querem elevar os seus próprios nomes e fazer da palavra de Deus um meio de enriquecer, mas esquecem que um dia o Rei os chamará para que lhe prestem contas e aí gritem, chorem que ninguém os salvará, pois Ele não terá misericórdia destes”.

Evangelho verdadeiro não precisa de “tumores”, nem de “ratos” de ouro. Precisa de homens e mulheres transformados e compromissados com Jesus Cristo. Tenho dito. Que Deus a todos abençoe ricamente. Amém!



UM GRITO DEIXADO NO AR: o Suicídio (inclusive de pastores) (5ª Parte)


Depressão II – A depressão “normal”.  As aspas da palavra “normal” são de propósito. Para boa parte de “cristãos religiosos” (sic) o uso desse termo está errado, visto que o cristianismo, segundo Jesus Cristo, é composto de pessoas alegres; pois, o fruto do Espírito contém “alegria”. Isso leva à conclusão de que toda depressão tem sua origem no pecado da pessoa. É o dedo acusatório religioso. Basta um olhar introspectivo que há de se descobrir, ao longo da vida, aqueles “dias sombrios”. Para esses “dias sombrios”, tais cristãos floreiam com eufemismos: solidão, desânimo, desestímulo e outros. A ciência médica e a psicológica definem claramente a depressão dita “normal”. De forma objetiva e direta, a depressão tem sido uma experiência cristã normal. Há inúmeros exemplos bíblicos. O grande problema é: o que fazer quando ela chega? Afinal, o cristão está sujeito a todas as intempéries da vida, como qualquer outro indivíduo. A questão não é, basicamente, a chegada da depressão... mas, a maneira de lidar com ela.

Sei que muitos dirão que esta análise está errada, não se coaduna com a Bíblia. Na verdade, há muita hermenêutica bíblica torta, em função de um cristianismo difuso e anacrônico. A Bíblia admite, sem dar o nome moderno “depressão”, muitos personagem que passaram pelos “dias sombrios” do “vale da sombra da morte”. Jó foi um deles, e os seus lamentos foram profundos e lancinantes. Em 3:20 sua tristeza e amargura chegaram a níveis extremos; em 3:21 diz claramente que anelava pela morte; em 3:26 demonstrava sentir-se totalmente desamparado; em 7:4 diz que se revolvia na cama e não conseguia dormir; em 9:21 afirmou que a sua vida não tinha mais qualquer sentido; em 14:1 demonstrou um pessimismo inquietante; em 17:7 suas mágoas o levavam à somatização.

Há muitos outros. Davi descreve, não poucas vezes sua solidão, angústia e medo. Foram medos de inimigos de guerra e, também, de pecados cometidos (II Sm. 12:15-23; 18:33; Sl. 38:4; 42:11). E Elias, o grande profeta? Demonstrou desânimo, medo e cansaço (I Rs. 19:1-10). Jonas pediu a morte a Deus mais de uma vez (Jn. 4:3, 8-9). Jeremias foi um profeta que sempre lutou contra um contínuo sentimento de frustração, derrota e insegurança de um homem solitário. Não pode casar, ter filhos e sempre foi rejeitado pelo povo. Chorou muito e, até, maldisse o dia do seu nascimento (Jr. 20:14-18). O próprio Jesus, na sua humanidade (natureza teantrópica), numa demonstração inequívoca daquilo que passou em nosso lugar, teve momentos de profunda angústia (Mc. 14:34-36; Lc. 22:44).

Como já dito, muitos cristãos – talvez, a maioria – não aceite esse fato, ou verdade. Todavia, estes se esquecem de que o cristão é gente também. Possui coração, sentimento, sente dor, paixão, amor, ódio.  Como já dito, o grande problema é como lidar com tudo isso. O cristão não é feito de ferro e, quase, inquebrável; nem é despido de humanidade. Diariamente o cristão é afetado pelas vicissitudes da vida, como o não cristão também o é. Por isso, o cristão também enfrenta o perigo, a tristeza, o desamor, as crises, a separação... portanto, pode ficar em estado de depressão. Assim, o cristão que enfrenta causas reais de tristeza, desamparo, solidão, precisa entender que, na sua humanidade, pode passar por tudo isso, tanto quanto um não cristão. Reiterando: o problema é como enfrentar isso.

Ainda há a questão das doenças e acidentes. Nenhum cristão está imune. E elas provocam a depressão. Nesses momentos há uma mais profunda conscientização da fragilidade humana e da fugacidade da vida (Salmo 90). Há uma gradual perda de amor-próprio e da alegria. Isso é normal, também, para o cristão... incluindo-se o pastor. Há os “cristãos religiosos” que, como os amigos de Jó, aparecem nessa hora com expressões absolutamente desnecessárias e desumanas, tais como: “não fique assim, pois Deus fica triste”, ou “tenha fé, Deus é maior” e muitas outras. Tais frases ocasionam, ainda mais, o aprofundamento da depressão. Um abraço, um “chorar junto” e profunda oração de reconhecimento da fragilidade humana e da certeza de que Deus está no controle e tem motivos que só Ele sabe para permitir tais circunstâncias, num reconhecimento da soberana vontade de Deus; fará muito mais bem para o depressivo.

As emoções humanas não são mudadas sob o comando de um botão, não importa qual o nome dado; seja fé, confiança, oração, passeio e muitos outros. Nada melhor que a empatia, o amor sincero, o apoio irrestrito, o orar junto, cantar louvores junto, buscar a Deus junto. Só quem já passou pelo “vale da sombra da morte” pode avaliar o que é o sofrimento da alma. Ainda assim, tais pessoas, ao querer ajudar outros a, também, passarem pelo mesmo “vale”, precisa entender que as pessoas são absolutamente diferentes em suas emoções. Os problemas podem, até, serem os mesmos... mas, as reações podem ser diferentes. Por isso, nenhum julgamento pode ser feito.

Inexistem vitórias sem lutas na vida do verdadeiro servo de Deus. Daí, que essas lutas, não poucas vezes, pode levar a encruzilhadas e, até, beco que pareçam sem saídas. E isso, sem dúvidas, pode levar a depressão. Não perceber isso é chafurdar-se em lamas onde o mover pode tornar-se difícil. A negação do problema é muito pior. O afirmar que é pecado só traz mais culpa e aumenta a depressão. Orar, orar e orar... jejuar, jejuar e jejuar só leva a mais desespero. Ninguém está dizendo que não se deve orar ou jejuar. Sim, é necessário sempre e em qualquer situação. Aliás, o cristão precisa orar sempre (I Ts. 5:17). Todavia, quando a falta dela é colocada como motivação da depressão, a situação tende a piorar; pois, o sentimento de culpa é aumentado. A luta irracional contra a depressão leva a um aprofundamento da crise. A primeira e principal coisa é: admitir a depressão.

Há um livro, muito lido antigamente e pouco conhecido dos crentes atuais, intitulado “O Peregrino”. Seu autor é John Bunyan. Um dos capítulos mais ilustrativos da situação deste artigo é o episódio “Pantanal do Desespero”. Estimulo você a procurar o livro e lê-lo. Preferencialmente lê-lo todo... mas, em especial o referido episódio. Ele espelha abençoadoramente a questão. O cristão precisa entender, definitivamente, que “pertencer” a Jesus Cristo não produz imunidade automática contra os males da mente, da alma, das questões emocionais. As lutas do “vale da sombra da morte” são “normais” a todos os seres humanos, inclusive para os “filhos de Deus”. Estas podem ser resolvidas somente com muito apoio, amor, empatia, compreensão. Um “pegar na mão” e colocar as coisas no trilho com muito amor... sem pressa. Pode-se precisar de ajuda profissional? Sim, muitas vezes. Cada caso deve ser analisado individualmente e à luz da Palavra de Deus. Com oração também? Claro, sempre. Mas, é preciso distinguir claramente as causas naturais e inerentes ao ser humano e as causas espirituais. Nem sempre é fácil... mas, necessário.

Mas, existe a depressão que não é normal? Aquela que é produto de neuroses e que precisa de ajuda altamente profissional e, quase sempre, demorada? Sim, existe. Será assunto do próximo artigo.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

UM GRITO DEIXADO NO AR: o Suicídio (inclusive de pastores) (4ª Parte)


Depressão I - “A depressão é um transtorno comum em todo o mundo: estima-se que mais de 300 milhões de pessoas sofram com ele. A condição é diferente das flutuações usuais de humor e das respostas emocionais de curta duração aos desafios da vida cotidiana. Especialmente quando de longa duração e com intensidade moderada ou grave, a depressão pode se tornar uma crítica condição de saúde. Ela pode causar à pessoa afetada um grande sofrimento e disfunção no trabalho, na escola ou no meio familiar. Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio. Cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano - sendo essa a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos”.* Essa informação é da Organização Mundial da Saúde (OMS). O link para acesso vai no final deste artigo. 

Como prometido na postagem anterior, o tema deste será a depressão como uma das causas do suicídio. As ciências médicas apontam a depressão como uma “desordem do funcionamento cerebral”. Desordem que afeta e compromete todo o funcionamento normal do organismo humano. Isso traz reflexos diretos na vida pessoal do depressivo em vários aspectos: emocionais, psicológicos, familiares, sociais e, também, espirituais. Em outro artigo será abordada a questão doença X pecado. Como doença deve ser examinada à luz da biologia, da genética, do cognitivo e do social; onde se deve levar em conta o histórico pessoal da pessoa em todas as possíveis áreas. Como pecado, deve ser examinado à luz da Palavra de Deus. Entretanto, creio, as duas coisas não são excludentes.

Óbvio que o enfoque principal do blog é o mundo cristão e, em especial, o ministério pastoral. E este tem sido vítima brutal de suicídios. Prega-se que a igreja precisa ser “comunidade terapêutica”. Isso não combina com suicídio... todavia, isso tem sido recorrente. O cristão e, em especial, o pastor, deve ensinar tudo que Jesus ordenou e ensinou. Não apenas as doutrinas teológicas sobre Deus, salvação, igreja, oração, demônio, anjos, oração... mas, também, sobre casamento, pais e filhos, obediência, liberdade, sexo, ansiedade, medo, solidão, dúvida, orgulho, desânimo, depressão e muito mais. Jesus tratou muito com pessoas problemáticas. Sempre as ouvia e as aceitava como eram. Portanto, cumprir o que Jesus ensinou inclui, além do ensino, ajudar as pessoas a se conhecerem melhor e se relacionarem melhor com Deus, com o próximo e consigo mesmas.

Já li que a igreja é um “depósito de santos”. Definitivamente, isso não é verdade. A igreja precisa ser uma “comunidade terapêutica” onde todos, pastor, membresia e comunidade sejam, mutuamente, ajudados e abençoados. Como “comunidade terapêutica” no sentido mais amplo, precisa ser, também, no sentido espiritual. Assim, essa comunidade precisa ser alicerçada num tripé que: a) é voltada para o alto; b) é voltada para o exterior; c) é voltada para dentro de si, o seu interior. Para o alto porque deve adorar junta; para o exterior porque deve evangelizar junta, levando em conta os dons pessoais de cada pessoa; para o interior (dentro de si) porque precisa praticar a verdadeira comunhão à luz de Atos 2. Obrigatoriamente isso implica em uma equânime divisão de tarefas, segundo os dons recebidos de Deus; mas, também e principalmente, uma fraternidade que excede a qualquer entendimento humano. É um tripé autossustentável  firmado na Palavra de Deus e é indestrutível se firmado na Rocha que é Cristo. Todavia, a igreja fica fragilizada e os cristãos, individualmente, ficam a mercê de intempéries variadas, se um pé do tripé não estiver funcionando corretamente. Quando o tripé está solidificado em Cristo é certo que Ele cumprirá a promessa de que “estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt. 28:20b NVI).

As três partes do tripé estão fragilizadas na igreja moderna. Cada uma das partes mereceria um livro para ser abordada. Quero focar apenas na interior, na comunhão, na ajuda comunitária que envolve o amor ao próximo, o amor ao outro e o amor a si próprio. O íntimo de cada pessoa, de cada cristão é, quase sempre, algo indecifrável. Um mundo tão soturno que é difícil compreender o cristianismo vivido assim. E o que é pior, o mal atingiu os pastores, aliás, os líderes religiosos em geral e o reflexo disso chama-se ou desemboca-se na depressão. A OMS afirma que a depressão é a doença do século e da moda. Não há mais alegria de viver. Já ouvi no meu gabinete algo assim: “vivo num inferno e cheguei ao fundo do poço, acho que não tenho mais perdão”. O sentimento do depressivo é de perda do amor-próprio, perda da dignidade, perda da autoestima. A pessoa já não vê mais sentido para a vida, face a um futuro incerto e sem perspectiva. A tristeza está estampada nos olhos, no rosto, no andar, nos movimentos corpóreos. O desejo é de entrar dentro de si, como um caracol. Já não há mais desejo de contato pessoal, de trabalhar, de passear, de namorar. Normalmente o apetite vai embora, a comida fica insossa, a insônia passa a ser parte normal da vida. O resultado é lentidão mental e uma infinidade de doenças psicossomáticas, tais como: cefaléia, dores musculares generalizadas e até inapetência sexual.

Há que se prestar muita atenção na “depressão mascarada”, expressão cunhada por especialistas. No mascaramento a pessoa que sofre a depressão tende a se afastar de tudo e de todos ao seu redor. Prefere mais tempo sozinha e muda seus hábitos alimentares e de sono. Perde o foco e o interesse nas atividades que antes gostava muito. Mesmo ensimesmada torna-se especialista em demonstrar coragem quando está na frente de outras pessoas. Especialistas apontam dez (10) hábitos de pessoa com depressão mascarada. Ei-las: 1. Perda de interesse por atividades que antes gostava; 2. Mudança gradual no apetite (com ganho ou perda de peso); 3. Sente e reclama de abandono (coitadismo); 4. Insônia ou sono excessivo (fuga); 5. Passa a mentir com frequência (acobertamento do seu estado); 6. Quer passar maior parte do tempo sozinha (evita o social); 7. Porta-se com coragem na frente dos outros (alteração do estado mental); 8. Vagarosamente começa a consumir mais café, álcool, açúcar e até drogas (estimulantes para aumentar o humor e conseguir dormir); 9. Mudanças repentinas de direção da vida ou expressões de sentimentos inadequados ao seu padrão vigente; 10. Sutis pedidos de ajuda (pouco perceptível a quem não está atento).

O parágrafo anterior foi escrito para que as pessoas conheçam os principais sinais que, por si sós, soam como “sutis pedidos de socorro”, e possam ser ajudados. Vance Havner (pregador itinerante batista dos EUA, 1901-1986) perdeu sua esposa, ficou muito doente e desencadeou o que ele chamou de “andar no vale da sombra da morte”. Afirmou que a experiência cristã acontece em três (03) níveis: 1°. os dias do “topo das montanhas”, onde tudo vai muito bem obrigado, com os dias ensolarados e bonitos; todavia, ninguém consegue pular de topo em topo nas montanhas sempre. Entre os topos estão os vales e planície; 2º. depois vêem os “dias comuns”, onde nada de anormal acontece, tudo é sempre igual e os dias são mornos, nem alegres nem deprimidos; . por último, os “dias sombrios”, quando a vida é um arrastar pesado pelos vales e planícies, por meio dos desânimos, desesperos, dúvidas e sentimentos confusos. Diz Havner que os três níveis se alternam por dias, meses e, até, anos antes da completa sensação de alívio. Também diz que, a persistência da continuidade dos “dias sombrios”, sem alternância com os outros níveis... é a instalação da depressão. Então, quais as causas e sintomas da “depressão normal” onde existem os “sutis pedidos de ajuda” antes que haja um “grito deixado no ar” pelo suicídio? Assunto para o próximo artigo. Que Deus o abençoe ricamente. Amém.
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*https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5635:folha-informativa-depressao&Itemid=822   (acessado em 14 de janeiro de 2019)




terça-feira, 8 de janeiro de 2019

UM GRITO DEIXADO NO AR: o Suicídio (inclusive de pastores) (3ª Parte)

Escrever ou falar sobre suicídio é algo profundamente desafiador. Sem dúvida, é uma situação de vulnerabilidade psicológica pouco entendida e ou tratada no meio cristão. É um “silêncio gritante” que se expõe como uma máscara hipócrita de religiosidade envernizada. Máscara que, para o que sofre se torna lancinante dor. Máscara que, no fundo, apenas encobre a dor desesperadora misturada a sentimentos inenarráveis de vergonha, de estigma infamante... de silêncio de “um grito deixado no ar” ao se tornar em ato mórbido.

Há que se entender que a probabilidade do ato mórbido tem variáveis em atos, muitas vezes contínuos. Variáveis de pessoa para pessoa, de situação para situação, de complexidades diferentes. O ideário é variável: a) surgimento de pensamentos sobre a possibilidade de cometimento do ato suicida; b) gestos autodestrutivos pré-suicidas em várias tentativas; c) a consumação suicida com a morte. O que vem à tona, em face de repercussão negativa, é a consumação do ato. Todavia, há sinais evidentes e progressivos que, ainda, não são levados a sério no meio cristão, mormente o evangélico, em virtude de um entendimento pífio e errôneo sobre o suicídio, suas causas e as questões espirituais bíblicas.

O dedo é, quase sempre, acusatório; sem levar em conta as razões reais que levam alguém ao ato efetivo de tirar a própria vida. Há, claramente, dois ápices que são apresentados ao longo de algum tempo pelo candidato a suicida: a) atos silentes que gritam ao mundo o profundo desejo que tem a pessoa de terminar com seu sofrimento, com sua dor profunda; b) o grito de socorro comunicador do seu sofrimento a todos em derredor. Esses dois gritos, quase sempre, são negligenciados pelos amigos, parentes e, principalmente, pela comunidade cristã. Pior, ultimamente os gritos têm saído da garganta silente e da vida de líderes religiosos. Muitos deles têm tirado a própria vida. Sempre que acontece o que mais se lê é: “vamos orar pela família enlutada”, ou, “que Deus tenha misericórdia”, ou “se a moda pega”, ou tantas outras frases de efeito que nada mais são que hipocrisia religiosa levadas ao extremo. Os dois sinais são evidentes (tratar-se-á disso em outro artigo), mas, o silêncio em vida dos amigos, colegas, familiares e congêneres é hipocritamente doentio.

Colegas de ministério são silentes ao sofrimento alheio. Colegas que se dizem “amigos” somem ao primeiro sinal de discordância. O lamento só vem após o suicídio acontecer. Não atentam – quase sempre propositalmente - para os sinais ápices expostos acima, tais como: repentina dificuldade financeira, desemprego, falta de ministério, baixa do “status” socioeconômico, problemas relacionais no casamento, perda de familiares por morte, doenças terminais ou não. Muitas vezes a pessoa se isola por motivos pessoais ou até por falta de perspectivas futuras na vida... e os amigos, colegas de ministério e familiares passam a ver esses “sinais” como motivos de afastamento, quando deveriam ser exatamente o contrário. Nem de longe entendem a mensagem da cruz e o amor de Deus.

O suicídio ainda é um grande tabu social. O desejo de viver é instintivo no ser humano, pois a vida é tida como bem maior. É inerente ao ser humano o preservar da vida, mesmo em meio ao caos, as doenças, as crises. Isso é divino. Todavia, esse princípio é violentado pelo suicida. Portanto, é exceção. Como exceção há muitas e variadas causas... cujos gritos são dados por períodos muitas vezes prolongados. Esses gritos é que precisam ser ouvidos e tratados... antes que reste apenas “um grito deixado no ar”. A vida é transitória, finita. A morte de uma pessoa idosa é algo natural, pois há a consciência coletiva dessa realidade. Mas, o suicídio não é natural. É uma antecipação não natural do tempo de vida. As indagações são maiores quando o suicida é um adolescente, um jovem ou um adulto não macróbio. No dizer popular: “jogou a vida fora”. Há, naturalmente, aquele sentimento de impotência dos amigos e parentes. Impotência pela consciência de que perceberam os sinais... e não fizeram nada. Aí surgem as divagações...

O ser humano é potencialmente feito – ou criado - para uma vida plena. É dotado de alta capacidade de amar, de criar, de crer. Crer no sentido da fé... não filosófica. Sem possibilidade de amar e sem fé em valores concretos que o façam progredir espiritualmente e serem criativos com relação a si mesmos e ao próximo, tende a fugir da realidade. Em outras palavras, o ser humano nasceu dotado de valores internos que o impulsionam à fé e ao amor. Esses fatores são motivacionais ao extremo. A perda da fé traz a perda do amor e a consequente depressão. Sem fé e sem amor não há vida que valha a pena ser vivida... é a consequência natural no pensamento suicida.

Inexiste fator único para o suicídio. É um fenômeno altamente complexo que se traduz na fuga da vida. Todos esses fatores acabam levando a um imenso vazio de alma. Vazio existencial motivado por frustrações diversas, tédio e aquela sensação de que a vida não vale a pena ser vivida, pela falta de vislumbre de futuro alegre, feliz. Mas, então, porque religiosos (pastores, padres, missionários e outros) se suicidam? E como fica a certeza de um futuro com Deus na eternidade? Complexo isso! Dentre todos os fatores já citados – são multidimensionais – talvez, o que mais acomete a classe religiosa é a depressão que, aliás, é oriunda, também, de múltiplos fatores. É sobre a depressão como fator suicida que serão os próximos textos. Até lá.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

UM GRITO DEIXADO NO AR: o Suicídio (inclusive de pastores) (2ª Parte)


Nenhum cristão sério duvida de que a vida é sagrada. É dom dado por Deus e, portanto, pertence a Ele (Sl.139:13-16, dentre tantos). Infelizmente, no meio evangélico o tema ainda não é tratado com o devido respeito e profundidade. A transparência é necessária e inegociável.  Sem transparência, não há prevenção. A raiz não é apenas espiritual, é social e psicológica também e muito mais profunda do que se pretende transparecer. É preciso desnudar a máscara da religiosidade, dos transtornos, das crises e dificuldades pelas quais passa o meio cristão e, essencialmente, os pastores, pastoras e liderança espiritual (genericamente falando). Não há porque se esconder a realidade nua e crua do meio religioso. Há dezenas de pastores se suicidando... e ponto final.

Fiz um rápido levantamento nas redes sociais (portanto, não é científico) e descobri que nos últimos três anos mais de vinte (20) pastores, pastoras, missionários, evangelistas e congêneres se suicidaram mundo afora. No Brasil o suicídio está grassando cada vez mais. A realidade do fato tem que deixar de ser tabu e o enfrentamento real, transparente, verdadeiro, sem religiosidade hipócrita precisa ser enfrentado. E mais, esse não é apenas um problema da igreja cristã, é, também, um problema social grave que as forças governamentais têm que enfrentar.

O fato é antigo, apenas grassou nos últimos tempos. Biblicamente falando há alguns casos mostrados pela Palavra de Deus. Independe se a pessoa se matou ou pediu para que a sua vida fosse tirada, tendo consciência de que morreria de qualquer forma. É só conferir: Abimeleque (Jz. 9:54); Saul (I Sm. 31:4); o escudeiro do rei Saul (I Sm. 31:4-6); Aitofel (II Sm. 17:23); Zinri (I Rs. 16:18); Judas (Mt. 27:5). Há, também, Sansão que pediu pra morrer, juntamente com os inimigos filisteus (Jz. 16:29-30). O carcereiro de Filipos, só não se suicidou, por intervenção do apóstolo Paulo (At. 16:26-28). Aqui não se discutirá, dos textos acima, o que é tido como suicídio ou não, se é eutanásia ou suicídio assistido. Apenas a constatação de que a Bíblia mostra alguns casos de suicídio.

Fora isso, há alguns casos de “homens de Deus” que, diante de crises homéricas para eles, pediram a morte, num deplorável estado de depressão ou distúrbios emocionais e ou espirituais. Outros que honestamente choraram suas crises em desespero de morte. Ei-los: Davi, ao ser repreendido por Natã e saber da morte de seu filho... entrou em desespero (II Sm.12:13-18). Muitos salmos refletem seu estado de angústia e dor (Sl. 38:4-6; 42:5;11 e outros). Elias, o vitorioso profeta foi ameaçado por Jezabel e fugiu. Longe, no deserto, desgastado, derrotado, afastado de tudo e de todos, sentou-se e pediu a morte (I Rs. 19:4). Jonas, vocacionado por Deus aos ninivitas... fugiu. Foi resgatado e pregou uma mensagem simples, objetiva a ponto de salvar toda uma cidade. Porém, ao invés de alegria, ficou triste e bravo ao mesmo tempo, a ponto de pedir a morte (Jn. 4:3, 8-9). sofreu tanto que, diversas vezes, entrou em crise profunda (Jó 3:11, 26; 10:1). Moisés também passou por crises profundas diante da incredulidade do povo de Deus. Foram momentos de ira, desespero, decepção diante da missão (Ex. 32:19-20, 32). Jeremias, o profeta chorão, sempre teve sua mensagem rejeitada, além de ter sido proibido de se casar e ter filhos. Pobre, solitário, perseguido e rejeitado, constantemente chorava e teve momentos de profunda depressão (Jr.  8:18-9:1; 20:14, 18). O próprio Jesus, o Filho de Deus humanizado (sua natureza teantrópica), mostrou, como exemplo, que todos passariam por crises (Mc. 14:34-36; Lc. 22:44).

Alguns afirmam que o suicida tem distúrbios mentais. Bem isso é verdade, mas, não toda a verdade. Não existe causa única. Existem duas escolas clássicas que pensam de formas diferentes. Uma é a sociológica e a outra a psiquiátrica. A primeira entende que o distúrbio nem sempre é mental. A segunda acha que sim. Há outras escolas, claro. Não há como ter unilateralidade em tal assunto. O leque precisa ser maior e aberto. Pessoas que demonstram plena saúde mental, não poucas vezes, por determinadas circunstâncias surtam. Há momentos na vida que pessoas absolutamente normais sofram pressões terríveis tais como: doenças graves, morte de pessoa amada, profundo sentimento de sofrer injustiça, desmonte familiar... e tantos outros. Além disso, pode surgir a depressão, o isolamento indesejado, a bipolaridade, a violência doméstica, as drogas, questões morais e éticas, além de profundos questionamentos religiosos tão comuns no meio cristão, independente de denominação.

Se as linhas “sociológica e psiquiátrica” não se entendem, a cristã também não. Há extremos que precisam ser combatidos. Há aqueles que entendem que a depressão suicida é causada por “demônios” e há aqueles que entendem que é causada por pecados cometidos. Ambas as correntes entendem que a depressão que leva ao suicídio não é doença. E isso é um erro crasso. Mas, sobre isso, especificamente, será tratado em um próximo artigo. Fique atento!

Apenas para instigar sua leitura dos próximos textos, quero fazer uma afirmação que é peremptória para este autor: Ninguém pode julgar que alguém não morreu salvo, pelo fato de ter cometido suicídio. “Cada caso é cada caso”, como diria minha avó. Vou entrar mais profundamente nisso oportunamente. Não tenho medo de afirmar que um cristão pode sofrer um distúrbio mental, uma depressão violenta ou outro tipo de crise que julgue “sem saída” e atentar contra a própria vida. É normal? Não. É certo? Não. É a vontade de Deus? Também não. Por isso, há uma infinidade de tensões a serem discutidas. Toda essa discussão é embasada primariamente em princípios bíblicos que amo e estudo profundamente. Secundariamente, em outros estudos que precisam ser sopesados entre si e confrontados com a inerrância da Palavra de Deus.

Existem saídas e recursos divinos sadios e verdadeiros a serem buscados pelos potenciais suicidas. A base principal é, sempre, o amor superno de Deus. Depois vem o apoio da família. Todavia, o que o mundo cristão, sem generalizar, ainda não atentou é de que o potencial suicida sempre dá sinais latentes e SEMPRE precisa de ajuda. Que tipo de ajuda? Pense, reflita e vamos trabalhar juntos sobre os tipos de ajuda (no plural mesmo). Que Deus nos abençoe. Amém.






quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

UM GRITO DEIXADO NO AR: o Suicídio (inclusive de pastores) (1ª Parte)



O dicionário Houaiss observa que o substantivo feminino suicídio é “ato ou efeito de suicidar-se; desgraça ou ruína causada por ação do próprio indivíduo ou por falta de discernimento”. Observa, também, que o verbo pronominal suicidar-se é “pôr termo à própria vida, matar-se, causar a própria ruína; arruinar-se, desgraçar-se". Etimologicamente o vocábulo vem do latim “sui” (de si mesmo) e “cidium” (morte, assassínio). É uma forma do verbo “caedere” (cortar, matar). Claramente é um comportamento extremado e autodestrutivo. É uma decisão encontrada para solucionar e ou escapar de profunda e insuportável dor mental, psicológica, moral, religiosa, familiar e ou outras. Chega-se a um estado tão profundo de desespero, onde não existe mais coragem para enfrentar quaisquer desafios apresentados pela vida.

A história conta que em tempos antanho o morto sofria privação de qualquer honra fúnebre, se cometesse suicídio; o que traria imensa vergonha para a família. Na Atenas do século IV, o suicida tinha sua mão decepada e enterrada fora do corpo. Roma não permitia que o suicida por enforcamento fosse enterrado, além de confiscar todos os seus bens. De forma geral, as religiões não toleram o ato suicida. Ainda persistem exceções culturais como o “haraquiri” (prática – de exceção - da cultura samurai) e “camicase” (suicidas patriotas voluntários que se jogavam sobre alvos inimigos) que foram comuns durante a segunda guerra mundial.

Suicídio é, portanto, um “grito deixado no ar”, como forma de comunicação onde a pessoa “fala muito alto” com o ato de morrer. É um grito silente desesperado! É o estágio da vida humana em crise onde, simplesmente, parece não existir qualquer “luz no fim do túnel”. O suicida não vê mais sentido na vida... apenas uma dor demasiada pesada, insuportável. Todo suicida gostaria de viver e bem, apenas não suporta mais viver a vida lancinante que está vivendo, independente de qual seja o problema. Cada pessoa tem seu limite.

Dependendo da estrutura emocional e ou espiritual da pessoa, pensar na morte como saída irreversível para a solução de problemas, pode parecer a única saída possível e, não poucas vezes, desejável. Mesmo sabedora que a solução desesperadora é permanente, sem volta; aparenta ser a melhor para se lidar com uma dor que lhe parece dolorosa demais, insuportável. Com a estrutura emocional e ou espiritual fragilizadas ao extremo, o potencial suicida vê-se num labirinto escuro, doloroso, indecifrável e totalmente sem saída. Os caminhos lhe parecem ínvios e sem saída. Já tentou tantos caminhos e não encontrou qualquer saída, nem mesmo uma porta entreaberta. Por isso, o suicídio tem sido tão devastador e açambarca, inclusive, os “homens e mulheres de Deus”.

A somatória do substantivo (suicídio) e do verbo (suicidar) é algo tenebroso, impensado para pessoas ditas “normais”. Imagine para pastores! Estes que são os “vocacionados” e “chamados” de Deus, para a extensão de Seu reino. Estes que, biblicamente falando, têm a proteção e as bênçãos de Deus como pessoas em “missão especial” neste mundo tenebroso. Todavia, o fato latente e visível é que o ato tenebroso do suicídio chegou às hostes pastorais. E cada vez mais. ´

O site “oficina de psicologia” traz alguns dados que devem servir de alerta. Ei-los: cerca de um milhão de pessoas se suicidam no mundo, ou seja, uma pessoa a cada 40 segundos. Quatro milhões tentam... sem conseguir. O suicídio está entre as 10 principais causas de morte no mundo. Fora isso, há 11 tentativas para cada suicídio consumado. 20% dos suicidas não procuram qualquer tipo de ajuda. Que isso significa? Que o suicídio ronda todas as pessoas o tempo todo, independente de qualquer condição religiosa, étnica ou socioeconômica.

O grande problema é que o suicida, quase sempre, tem o desejo de fazê-lo potencializado pela angustiante deterioração emocional e ou espiritual que se encontra. Assim, o vislumbre de qualquer saída é potencialmente diminuído... ao ponto de enxergar-se num labirinto escuro, dolorido e que produz dores lancinantes na alma. O mesmo site informa que “mais de metade das pessoas que se suicidaram, estavam deprimidas” (Depressão será objeto de outro artigo desta série). O suicida vislumbra, potencialmente, dar cabo a sua dor desesperadora e não de sua vida. Dar cabo da vida é o “grito final e desesperador” de mente e alma profundamente doloridas.

Neste, e nos próximos artigos, será tratado o tema do suicídio. Não haverá preocupação mais profunda de tratar se a causa é de ordem psicológica ou espiritual. Se é própria ou demoníaca. Julgar só cabe a Deus. A tentativa aqui é tratar do tema de forma isenta e sem um dedo acusador. Afinal, creio, todos estamos sujeitos um dia a isso. Só Deus é capaz de julgar os meandros e melindres desse assunto tão pertinente.

Fato concreto é que sempre há um desvio de conduta emocional e ou espiritual que pode ter sido provocado por inúmeros fatores visíveis ou não. Talvez, a mais comum seja a depressão, que é chamado de “mal do século”, nesta era pós moderna. A grande preocupação deste autor é, ao final, trabalhar com mais profundidade a questão objetiva e concreta do “suicídio de pastores”. Isso implica, obviamente, em questões espirituais mais profundas.  Amém. Até o próximo. Abraço.

CARNAVAL 2020! O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA!

Neste artigo vou ser mais intimista. Vou usar o pronome na primeira pessoa. Normalmente não falo ou escrevo sobre aquilo que não sei, ...