sábado, 1 de junho de 2019

A NATUREZA TEANTRÓPICA DE CRISTO (série Doutrinas III)

O dicionário Houaiss diz que teantropia é “parte da teologia que se ocupa de Deus feito homem”. Definição bem rasa. Nos quatro últimos concílios para ordenação de pastores que este autor esteve presente, perguntei ao candidato: “explique a natureza teantrópica de Cristo”. Nenhum deles sabia, ao menos, o que significava “natureza teantrópica” de Cristo. Falta de conhecimento das línguas originais bíblicas, despreparo na etimologia das palavras na língua nativa e o baixo nível de instrução oferecida por inúmeros cursos de teologia pátria afora.

A intenção deste escrito não é dirimir dúvidas ou dar a palavra final. Isso seria absolutamente impossível. Não existe consenso, nem mesmo entre os de pensamentos semelhantes e ou da mesma denominação evangélica.  A intenção é trazer o pensamento sobre o assunto ao longo da história e, também, uma tentativa de descobrir aquilo que a Bíblia diz. Claro que, no final, um posicionamento pessoal, que pode ser o correto ou não. Só Deus poderá dizer.

Como premissa partideira, o assunto é a união hipostática (filosoficamente falando) da pessoa de Jesus Cristo. Filosoficamente, hipóstase (do grego hypo = sub, debaixo;  e, stasis – o que está, o subposto, o suporte). Empregado para indicar a subsistência de algo. É um conceito metafísico afirmativo de que a substância é “possuidora de si mesma”, ou seja, algo cuja substância subsista por si mesma em seu próprio ser. Confuso? Muito. Tomás de Aquino (e os escolásticos) afirmava que as hipóstases são as substâncias individuais e primeiras e, nesse sentido, considerava as “três pessoas da trindade” como substancialmente distintas e, na união hipostática, essas substâncias (as três pessoas) se tornavam num só Deus. Pejorativamente, esse conceito passou a designar uma entidade fictícia falsamente considerada como realidade que existe fora do pensamento (JAPIASSU e MARCONDES, 2008). 

Jesus, o Cristo, sendo Deus (Filipenses 2:6-7), fez-se homem tomando a natureza humana, unindo o divino e o humano em um só ser. Duas naturezas inseparavelmente unidas, conquanto sem confundir uma com a outra; tornou-se Deus-homem. Completamente Deus e, ao mesmo tempo, completamente homem. Identidades separadas... naturezas essencialmente imbricadas.

Teologicamente, o que significa teantropia? Vem da junção de duas palavras gregas: Theos (Θεοσ = Deus) e, com a inicial maiúscula faz referência ao Deus Jeová de Israel + Antropos (ανθρωποσ = homem ou ser humano). Isso significa falar de Jesus substância única, ou seja, “aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14 NVI). Teantropia é, pois, a perfeita união de duas naturezas em uma pessoa apenas, tornando-a divino-humana. Embora haja divergências entre os teólogos, a teantropia faz relação direta com Jesus, o filho de Maria e não às naturezas de Cristo. Dessa forma, Jesus é pessoa ímpar e única a ter duas naturezas, tornando-se autorrevelação de Deus aos homens. Sendo Deus-homem, na sua humanidade tornou-se a manifestação da perfeição e idealidade humana.

Biblicamente, Jesus (Deus-homem) sempre se refere a si mesmo como pessoa única. Na única referência existente (João 3:11), provavelmente o “nós” fazia referência a Jesus e os discípulos. Diferentemente de quando Jesus fazia menção da Triunidade, quer com o Pai (João 17) ou com o Espírito Santo (Lucas 4:18; João 16:13-15). O estudante da Bíblia, cujo autor da sua fé é o próprio Cristo, pela ação do Espírito Santo, entende que esse terreno é escorregadio e, muitas vezes, uma questão de fé. Biblicamente, o princípio teantrópico se assenta no fato de que essa natureza (divino-humana) é orgânica e indissoluvelmente unida na pessoa de Cristo (veja Romanos 1:3-4; I Timóteo 2:5; Hebreus 1:2-4 e outros). Por isso, pode-se afirmar que, tendo duas naturezas imbricadas, possuía apenas uma personalidade (hipóstase); ou seja, o divino-humano não sofria fragmentação ou variação no seu ser. A isso se dá, também, o nome de UNIPERSONALIDADE de Cristo.

O próprio Jesus afirmou que existia antes de Abraão (João 8:57-58) e a Bíblia informa que Ele nasceu no reinado de César Augusto (Lucas 2:1-14). A Bíblia diz que Jesus cansou-se e adormeceu, que chorou, que teve fome e comeu, que sofreu e que morreu... como homem. Também afirma que Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13:18); também, que sempre existiu e a tudo criou (João 1:1-3; Colossenses 1:15-20).

Por que, então, tanta divergência entre as denominações no entendimento da natureza teantrópica de Cristo? Há muitos que apregoam que o Cristo que morreu na cruz não pode ter sido um homem e sim Deus. Por quê? Dizem que, como homem, não aguentaria tudo aquilo e, por isso, às vezes era homem e, às vezes, era Deus.

É preciso registrar, também, que há uma forte corrente cristã que apregoa que a natureza de Cristo não é teantrópica. A explicação é a seguinte: a pessoa de Cristo é teantrópica... mas, não a Sua natureza. Deus-homem é algo que se pode afirmar quanto à pessoa de Cristo. O mesmo não seria possível, quando se faz referência da natureza de Cristo (divino-humana). Essa linha de doutrina concebe, pois, a natureza divina e a natureza humana... juntas, mas, separadas. A explicação lógica é que Cristo tinha uma inteligência e vontade infinitas, como divino; e uma inteligência e vontade finitas, como humano. Havia nEle uma consciência divina e outra humana. A inteligência divina era infinita e a humana era desenvolvida. A vontade do Jesus divino era onipotente e a vontade humana tinha, apenas, o poder da humanidade decaída.  Uma explicação bíblica para essa visão está no fato de Cristo ter afirmado “Eu e o Pai somos um”; entretanto, em sua vontade humana ele disse “tenho sede’. Se o leitor tiver interesse de estudar este ponto de vista, basta ler Dr.Henry Clarence Thiessen.

E desde quando vem essa controvérsia? Abaixo, algumas poucas informações históricas sobre a origem dessas discordâncias.

    1. Tudo começou com os Ebionitas.

Eles eram judaizantes, grupo cristão dissidente presente no judaísmo do primeiro século, tendo o maior núcleo em Jerusalém. Insistiam na necessidade da observância da lei de Moisés para os neo-conversos judeus e, também, para os gentios. Circuncisão e guarda do sábado não abriam mão. Provavelmente, o nome vem do termo hebraico “ebyônîm” que fazia referência ao estado de pobreza. Embora não haja certeza absoluta, parece que a seita começou após a destruição do templo em 70 d.C, sob a liderança de Ebion. Eram, basicamente, ascetas; sendo literalistas de Mateus 5:3 e Lucas 4:18. Por causa disso, tinham como Escritura apenas a “Tanach” (Bíblia Judaica) e o evangelho de Mateus. Rechaçaram completamente os ensinos de Paulo; logicamente porque Paulo desautoriza os ensinos de Ebion. Eles tinham, também, um evangelho próprio, segundo o bispo de Constância Epifânio; denominado de “evangelho dos ebionitas”.

Os Ebionitas não aceitavam a divindade de Jesus e o tinham como, apenas, um profeta. Diziam que Jesus era um novo Moisés. Negavam totalmente sua preexistência, encarnação e nascimento virginal. Para eles, Jesus era totalmente humano, como qualquer dos profetas do Antigo Testamento. Isso explica o porquê de tantos judeus “conversos” nunca terem se desvencilhado do “Toráh” e suas leis e abraçarem inteiramente o evangelho da graça. Por causa dessa interpretação judaizante, Paulo foi perseguido e tantos ainda esperam um novo “Messias” como líder libertador e, até, rei mundial sob a bandeira de Israel. Há uma corrente de estudiosos que assevera que os ebionitas se dividiam em duas classes: os ebionitas judeus e os ebionitas gnósticos.

    2. Gnosticismo

Inversamente aos ebionitas, os gnósticos não criam na humanidade de Cristo. Ebionitas e gnósticos começaram a interpretar erradamente os ensinos de Cristo e dos apóstolos. Os gnósticos, especialmente, a partir do contato com a filosofia grega. O cristianismo passa a ser interpretado à luz da filosofia gnóstica grega. Tal filosofia dizia que só era possível entender os fatos a partir do intelecto ou conhecimento (a gnose). Em outras palavras, só era possível chegar até Deus pelo conhecimento ou capacidade intelectiva. O apóstolo João foi o grande defensor do evangelho genuíno de Cristo e acusador do gnosticismo. Havia o gnosticismo judeu e o cristão. O primeiro vicejou na prática da cabala judaica, com pouquíssima influência bíblica. O segundo aconteceu na tentativa de evangelização do mundo greco-romano. O gnosticismo cristão entrou em rota de colisão com as doutrinas neotestamentárias e, logo, formaram seitas separatistas. De forma geral o gnosticismo não aceitava a encarnação de Cristo, nem sua ressurreição. Negaram, como divinos, alguns livros do Antigo Testamento, tendo incluído em seus escritos literatura gnóstica.

Os gnósticos tinham conceitos específicos sobre a origem do mal. Ora, Deus é a fonte do bem, mas o mal existe. Então, a origem do mal está fora de Deus e, também, independente dEle. Por consequência, Deus é a fonte de todas as existências espirituais. Os gnósticos criam, também, que a matéria é má e o mal surge da matéria. Então, o mundo – que é mal – não foi criado por Deus, mas, por um espírito inferior (o Demiurgo). O ser humano era um espírito da parte de Deus com um corpo material e alma animal. Era a união do espiritual com o material (bom e mal, juntos). Assim, o espírito, que é bom, contamina-se com o material; que é mal e escraviza-se. Ora, para redenção desse corpo ruim escravizado Deus enviou Cristo, uma das mais elevadas emanações de Deus em aparência de homem. Por quê? Porque seria impossível que Jesus se humanizasse sem se contaminar. Como resolver isso? Eis o que arrumaram: a) Cristo não tinha corpo real, ou seja, era mera aparência, sem substância. Daí surgiu o termo “docetista” (do grego (δοκεω = aparentar, parecer ser). Toda vida de Cristo na terra teria sido mera ilusão (negavam seu nascimento, sofrimento ou morte); b) Cristo tinha corpo real, porém, não material. Seu corpo teria sido formado de substância etérea e enviado ao mundo pelo próprio Deus.

Ainda havia outro grupo que dizia ser Jesus um e Cristo outro. Distintos entre si. Jesus era o filho de José e Maria, Cristo era um espírito que desceu sobre Jesus, vindo de Deus, na hora do seu batismo. Esse Espírito é que o tornou poderoso e milagreiro. Neste caso, no seu sofrimento na cruz, Cristo voltou ao céu e deixou Jesus para sofrer. Basta um olhar em João e Paulo para se perceber o quanto os apóstolos combateram o gnosticismo, reafirmando a natureza teantrópica de Cristo. 

   3. A deturpação continua: os Arianos.

Seguidores de Árius, presbítero em Alexandria, provavelmente nasscido por volta de 280 d.C. Conseguiu muitos seguidores. Negava que Deus e Jesus seriam iguais. Afirmavam que só há um Deus e que Cristo seria, apenas, filho criado por Deus. Por isso, seria alguém num estágio superior aos humanos... mas, não Deus. Por isso, embora superior e elevado, era apenas criatura. Por essa época a igreja ainda estava tateando com suas doutrinas. A questão da Triunidade era intensamente discutida. Como Deus poderia ser Uno e Trino ao mesmo tempo? Os arianos propunham que o Cristo pré-existente, afirmado pela Bíblia, não podia ser diferenciado de toda a criação. Sendo assim, Cristo seria o primeiro dos seres humanos criados e, por meio do qual, as outras coisas foram criadas. Por isso, era o “Logos” criador. Criam, por isso, que Cristo veio a existir antes do tempo cronológico (Kronós), visto que o tempo “kronós” teve seu início com a criação (o quarto ato criativo de Deus = Gênesis 1:14-19). Nessa linha de pensamento filosófico da lógica grega, Cristo começou a existir a partir do “não existente” pela vontade criativa de Deus, ou seja, antes desse ato divino “Ele não era”. Para simplificar: Assim como “no princípio Deus criou (Baráh)” do nada; Jesus também foi criado do “não existente”.  Tantos séculos depois disso, e ainda há muita confusão.

    4. A negação da integridade ou integralidade da natureza de Cristo: os Apolinários

Designação dada aos seguidores de Apolinário de Laodicéia (não confundir com Apolinário Cláudio, bispo de Hierápolis e autor de “Apologias”, no início do cristianismo). Apolinário (315-392), bispo de Laodicéia, na Síria; colaborando com seu pai (Apolinário, o Velho), reproduziu o Antigo Testamento em formato de poesia homérica e pindárica (ao estilo do poeta grego Píndaro) e  Novo Testamento em formato de diálogo platônico em virtude do imperador Juliano (o apóstata) ter proibido os cristãos de ensinarem os clássicos.

Em seu desejo de enfatizar a divindade e unicidade de Jesus, Apolinário negou a existência de uma alma humana racional na natureza humana de Cristo. Essa alma seria substituída nEle pelo “Logos”; assim, seu corpo seria uma forma espiritualizada e glorificada de humanidade. Diferentemente das escolas anteriores, não havia a negação da natureza humana de Cristo, mas a negação da sua integridade. A situação ficou confusa.

Afirmavam a humanidade verdadeira de Cristo adotando a distinção platônica entre “soma” (σωμα=corpo) e “psique” (ψυχη=alma) e “pneuma” (πνευμα=espírito) como três princípios (ou seres) distintos na sua constituição. Era a admissão de que Jesus tinha um corpo verdadeiro (soma) e uma alma (psiquê) animal... mas, não um espírito/mente racional (pneuma).  Em Cristo (o Logos = filho eterno) supriu o lugar da racionalidade (a inteligência humana). Era a negação da integridade/integralidade de Jesus. Por que chegaram a essa conclusão?

Não podiam conceber que duas naturezas completas pudessem se unir a uma vida consciente. Se Ele é Deus, tem inteligência e vontade soberanas. Se é homem, mesmo que perfeito, tem uma inteligência finita e sua vontade sempre será humana. Assim, é impossível que o divino e o humano sejam uma só pessoa. Não negavam, pois, ao Jesus humano, nem ao divino... mas, a sua integralidade.

HODGE (2001) complementa o pensamento apolinariano, trazendo outra indução dessa doutrina, defendida pelos pais platonistas: a razão do homem é parte do “Logos” divino (ou razão universal). A conclusão lógica é de que, para eles, a diferença de inteligência entre Deus e o ser humano é, apenas, quantitativa. A lógica segue adiante, pois, assim, como poderia haver em Cristo – ao mesmo tempo – uma parte e o todo do “Logos”. É pura questão de lógica platonista grega. Todavia, na verdade do evangelho, como diz Paulo “Deus escolheu o que para o mundo é loucura para envergonhar os sábios...” (I Coríntios 1:27a) e ainda “onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?” (I Coríntios 1:20). A doutrina apolinariana foi condenada no concílio de Constantinopla em 381 d.C.

    5. A heresia nestoriana do século V d. C.

Também conhecida como heresia diofisita (das duas naturezas) continha a ideia da distinção entre as duas naturezas de Cristo. Na verdade, restrita ao eruditismo, a doutrina nasceu com Diodoro de Tarso e Teodoro Mopsuestia em Antioquia. Ela se alastrou para o meio da igreja com Nestório, Patriarca de Constantinopla entre 428 e 431 d.C., pela intensidade da sua defesa. Segundo essa teoria, as naturezas - divina e humana - eram separadas em Cristo. Por isso, Maria, sua mãe humana, não poderia ser tida como “mãe de Deus”. Segundo Nestório, o termo grego para mãe de Deus (Theotokos) não deveria ser usado e sim “mãe de Cristo” (Christokos). Motivo? Maria gerara um homem chamado Jesus, a quem o Verbo de Deus veio a estar temporariamente unido. Claramente, a doutrina pregava a desunião entre as naturezas humana e divina de Jesus e ensinava que Jesus passou a ser Deus em um momento específico da história... portanto, nem sempre foi Deus.

Apenas por força de comparação, essa doutrina ensinava que Cristo tinha duas naturezas bem distintas: uma humana e outra divina e, ambas, seriam completas e amalgamadas entre si. Seriam essas duas naturezas do tipo gêmeas siameses, ou seja, juntas... porém, diferentes. Um olhar mais profundo e teológico pode verificar claramente que Nestório confundiu natureza com pessoa. Era como se Jesus tivesse personalidade dupla. O “Logos” divino habitava o homem Jesus, simplesmente, assim como o Espírito Santo de Deus habita o homem ao recebê-lo pela fé.

   6.  O monofisitismo de Êutico.

Conhecidos como eutiquianos, do século V, seguiam a Êutico ou Eutiques, zeloso ciriliano. Foi monge de Constantinopla e defensor do monofisismo (doutrina que refutava que Jesus tinha duas naturezas completas). Sua doutrina levou a que deificasse a humanidade de Cristo, negando que seu corpo fosse da mesma natureza que o ser humano. Afirmou que, após a encarnação, existia somente uma natureza em Cristo e que, não era completamente humana, nem completamente divina. Jesus seria a união misturada de duas naturezas, culminando em uma terceira natureza que, em latim é tertium quid. Esse termo é associado a alquimia e vem do latim como tradução do grego “triton ti”, significando “terceira coisa”. Simplificando, esse terceiro elemento é “não identificado”, mas que está em combinação com dois conhecidos. Isso significa que não existiam duas (divina e humana), mas, apenas uma natureza em Cristo: a terceira.  Essa única natureza (fundição da divina e da humana) depois da encarnação, significava que Cristo não seria humano.

    7. A cristologia ortodoxa: Concílio de Calcedônia

O concílio aconteceu em 451. A motivação era encerrar a controvérsia entre Antioquia e Alexandria sobre a natureza de Cristo. Embora a definição tenha saído, a polêmica continuou mais acirrada e, de alguma forma, persiste até hoje. Boa parte da controvérsia aconteceu na igreja oriental. A ocidental só se mobilizava quando forçada por algum imperador; o que mostra, naquela época, a ingerência política sobre a igreja. Ao invés de soluções... complicações.

Sucintamente, Calcedônia definiu que na pessoa de Jesus Cristo havia duas naturezas: a humana e a divina, cada uma na sua integralidade e plenitude. As duas naturezas estariam unidas de forma orgânica e indissolúvel. Embora as discordâncias continuem a existir, principalmente, com o advento da Reforma Protestante, a definição do Concílio de Calcedônia tem sido usada como padrão ortodoxo do ensino da Bíblia sobre Cristo, nas várias vertentes do cristianismo. Abaixo, uma tradução integral da decisão de Calcedônia:

“Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo, consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado; gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da virgem Maria, mãe de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa em uma subsistência; não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas desde o princípio acerca dele testemunharam, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o credo dos santos pais nos transmitiu”

   8. Meus alfarrábios. Nisto creio...

A unipersonalidade ou natureza teantrópica de Cristo vai muito além da razão humana. A Bíblia é racional... mas, acima de tudo um livro de fé. Quando a Bíblia começa, está escrito: “No princípio Deus criou...”! Acredite, se quiser. Não há explicações, não há biografia, não há convencimento. Simplesmente o autor afirma que Deus criou... e ponto final. A doutrina da unipersonalidade de Cristo transcende a razão humana. O todo não cabe na parte, o universo não cabe num planeta. Só a fé e a aceitação da autoridade da Palavra de Deus fazem o cristão descansar na realidade de que Deus se fez carne e habitou entre os homens.

Jesus, certa vez, questionou seus discípulos: “E vocês” perguntou Ele. “Quem vocês dizem que eu sou?” (Mateus 16:15 NVI). Esse questionamento foi e continua sendo a pergunta crucial do cristianismo. O entendimento de quem é Jesus é uma questão de salvação ou perdição eterna. Afinal, o discípulo amado afirmou que a vida eterna dependia do conhecimento de Jesus como “...único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3). Então, é de fundamental importância o que a Bíblia, inspirada por Deus e inerrante, diz.

À pergunta de Cristo, Pedro confessa que “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” (Mateus 16:16). Além de Pedro, João afirmou que Jesus é a “Palavra que tornou-se carne e viveu entre nós” (João 1:14). Paulo, o apóstolo, asseverou que Jesus “é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis (...) Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste” (Colossenses 1:15-17); identificando-o como Deus. Ao mesmo tempo, identifica-o como homem (I Timóteo 2:5).

Independente de quem seja o autor aos Hebreus, Jesus é descrito como Deus e como homem (veja Hebreus 1:3 e 2:14). Ainda João explica a visão de Isaías 6:1-10 e 53:1-12, dizendo que Isaías viu o próprio Jesus como Deus e como homem. O próprio Jesus se autoafirmou Deus em João 8:54-58, causando fúria aos judeus. No mesmo evangelho aos gentios, Jesus se proclama divino e, também humano: “pão da vida” (João 6:48); “bom pastor” (10:11); “ressurreição e vida” (11:25); “luz do mundo” (8:12); “a porta” (10:9); “caminho, verdade e vida” (14:6); “videira verdadeira” (15:1). Em 14:6, além de se autoproclamar caminho, verdade e vida, diz que “ninguém vem ao Pai, a não ser por mim”; claramente como partícipe da divina triunidade.

Doutra feita, Jesus teve um entrevero com os judeus que ilustra essa verdade. Em João 8:40, após a afirmação dos judeus de que Abraão era o pai deles, Jesus diz: “mas vocês estão procurando matar-me, sendo que eu lhes falei a verdade que ouvi de Deus; Abraão não agiu assim”. O “eu” do “eu lhes falei”, foi traduzido de uma palavra grega que significa “homem”
. Claramente Jesus se apresenta como humano. Já no verso 58 Jesus afirma que: “... antes de Abraão nascer, Eu Sou”; agora se apresentando como Deus. No mesmo diálogo, com as mesmas pessoas, Jesus se apresenta como homem e como Deus. 

Assim, a doutrina bíblica descreve Jesus Cristo, o Deus Filho, tomando para si a natureza humana e, concomitante, permanecendo totalmente Deus. Jesus, o Cristo, sempre foi Deus, conforme diz JOÃO 8:58 e 10:30). Por amor à humanidade, querendo e precisando salvá-la fez-se carne (João 1:14). A humanização de Cristo, fê-lo Jesus, o Deus-homem. Totalmente Deus e totalmente homem. Naturezas inseparáveis. A humanidade e a divindade não se misturam... mas, se unem sem a perda de suas identidades.

Há de se entender que esses termos teológicos (teantrópica, hipostática e unipersonalidade) é, apenas, uma tentativa de entender como Jesus, o Filho de Deus, é dois e um: Deus-homem. É totalmente impossível ao ser humano entender cabalmente a maneira de Deus agir. O homem é limitado e finito. Deus é onipotente, onisciente e onipresente. Não há como entender Deus totalmente, a não ser à medida da sua autorrevelação em Jesus Cristo, o Deus-homem. Jesus sempre foi Deus, todavia, se tornou ser humano na sua concepção por Maria.

Conclusão.

O assunto sempre será controverso. Este escrito não teve intenção de dirimir dúvidas, apenas apresentar o que este simples mortal e pecador crê a respeito do seu Salvador e Senhor: Jesus, o Deus-homem.  Este se humanizou para viver e se identificar com as dificuldades humanas e fazer propiciação pelos pecados humanos (Hebreus 2:17). Foi isso que fez, pagando na cruz do calvário o pecado de todos nós (Filipenses 2:5-11).

Muitos o têm como um ser humano apenas. Outros, que foi grande profeta. Outros, continuam entendendo que Deus jamais poderia ser um humano. Entretanto, a Bíblia, Palavra de Deus inspirada, une a divindade e a humanidade de Jesus, mostrando que Cristo era Deus e, humanizado veio para salvar todos que O aceitassem como Senhor e Salvador. Eu aceitei, pela fé, Jesus Cristo, o Deus-homem. A Ele toda honra, toda glória, para todo o sempre! Amém.

OBS.  Algumas questões ainda precisam ser levantadas e serão no próximo artigo, se Deus assim permitir.
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BROWN, R. A Comunidade do Discípulo Amado, Nova coleção Bíblica n° 17, Paulinas, São Paulo 1984.

CASONATTO, O. D. Em Busca de Chave de Leitura do Evangelho e das Cartas do Apóstolo João. Passo Fundo, Ano IX, n 35, Nov. 1994, pág. 23-32.

HODGE. Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos. 2001. PP. 779-781.

JAPIASSÚ. Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.



terça-feira, 23 de abril de 2019

O QUE É TEOLOGIA. Série Doutrinas (II)

O dicionário Houaiss diz que teologia é “ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo”. “Ciência de Deus e das coisas divinas” (BOYER, 1986).  Pode-se afirmar que teologia é o estudo da existência de Deus e de questões referentes ao conhecimento dEle e de Sua relação como universo e com os homens. A palavra é de origem grega: “Theós” (Deus) + “Logos” (palavra que revela), por extensão “logia” (estudo). 

Os dicionários de diversas etiologias trazem teologia como “ciência”. Seria a teologia uma ciência? A resposta é: depende do que se entenda por ciência. É a análise do intangível pelo tangível e, também, da capacidade da teologia adequar-se aos critérios científicos humanos exigidos para a cientificidade. A ciência e a pesquisa científica pressupõem objetividade e neutralidade absolutas. Obvio que a teologia tem sua cientificidade própria... mas, seria ciência, no sentido pleno da etimologia? Afinal, ela tem objeto e método próprios. 

Como premissa há que se perguntar: como a ciência e a teologia se relacionam? Afinal, ambas caminham frenéticas em busca de conhecimentos. A ciência tem como objeto a busca em conhecer o mundo físico natural. A teologia tem como objeto conhecer a “realidade última”... ou seria a “realidade princípio”? Busca compreender o Criador e Sua relação com Sua criação: o universo e o ser humano. Claro que aqui entra o que a teologia chama de “autorrevelação” divina. Sem isto, jamais se conheceria Deus, cujo vértice se deu com a encarnação humana de Deus em Jesus Cristo. Com tamanha diferença de objetos, como ciência e teologia podem interagir? 

O conflito é grande. Modernamente a teologia foi alijada da categoria de ciências de forma unilateral. Até a chegada da “modernidade” a teologia se assentava sob a cosmovisão da fé, por intermédio do cristianismo. Com a modernidade, após as revoluções industrial e filosófica e o consequente esfriar da fé cristã, a teologia perde terreno como ciência. Na verdade, como ciência, a teologia tem sido questionada por diversas ciências e, também, pela própria comunidade cristã. O grande medo é a perda e ou esfriamento da fé com o estudar acadêmico. Um dos maiores teólogos e pensadores modernos (1940-2009), pastor luterano na Alemanha afirmou: “A idéia de que a teologia seja uma ciência é negada tanto pela ciência, como também no âmbito da própria teologia” (BRANDT, 1972).

Talvez um dos maiores responsáveis pelo questionamento da teologia como ciência foi o filósofo Alemão (nasceu na Prússia) Immanuel Kant (1724-1804), considerado como o principal filósofo da era moderna. Na verdade foi um gênio da filosofia que transitava na epistemologia (síntese entre o racionalismo e a tradição empírica inglesa), com extrema valorização da indução. Abordou desde a moralidade até a natureza do espaço e do tempo. Promoveu a reunião conceitual entre o racionalismo e o empirismo, mostrando os limites da razão. Kant fez severas críticas daqueles que usavam a razão para provar a existência da alma, de Deus e da origem de todas as coisas. Como tais coisas iam além do limite da razão, não seria possível produzir conhecimento sobre os mesmos. A razão teria que recuar mediante a pretensão da metafísica de “conhecer a coisa em si”. A essa pretensão Kant chamou de “dogmática”. 

Para Kant, Deus estava fora da investigação científica. Deus (alma, etc.) estava na esfera do que denominou “mundo numênico” e não na esfera do “mundo fenomênico”. O fenomênico é verificável, já o numênico não o é. Por essa lógica, Deus não pode ser estudado cientificamente... apenas, a religiosidade. 

Embora não fosse um ateu, a partir dele e seus seguidores, a teologia começou a ficar em outros campos, que não o científico. Em “dialética transcendental”, Kant filosofa sobre o que chamou de “juízos sintéticos” na metafísica. A “coisa em sí” (alma, Deus, Cosmos, por exemplo) não chega ao ser humano pela razão. Então, metafísica e teologia são impossíveis como ciência; pois, não se pode ir além da razão. Por isso, ele denominou de “dogmática”. 

Claramente Kant era pura razão. Mas, Deus e a Sua Palavra, vão muito além da razão. É por isso que Paulo afirma: “Pois a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus. Pois está escrito: ‘Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes’. Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo” (I Co. 1:18-20 NVI)? A Bíblia começa com afirmação categórica: “No princípio Deus criou...”; acredite se quiser. A seguir o autor passa a afirmar cada criação de Deus. É uma questão de fé, por isso, acima da razão. 

Então, a pergunta persiste: A teologia é ciência? E, o que é teologia?  Então, a briga passa a ser entre Fé e Razão. Obviamente que há filósofos e cientistas modernos que defendem a teologia como ciência, como Harold Brown (1927-2019). Na maioria, cristãos, obviamente. Este autor não é cientista, nem filósofo. Apenas um livre pensador crítico e estudioso das coisas da Bíblia. Um teólogo e servo de Jesus Cristo, para afirmar a fé. Por isso, a necessidade de completa isenção, embora se saiba que isso é impossível, em termos de fé que, não poucas vezes, vai muito além da mera razão.

Partindo do pressuposto da fé, de que teologia é ciência, ela precisa passar pelo crivo da ciência que, afinal, foi elaborada por mentes humanas, independentes de seus dogmas e fé. Há uma gama gigantesca de pressupostos para comprovação daquilo que é ciência. Depende de cada cientista, de cada pesquisador, de cada linha de pensamento, de cada escola. Neste escrito, a base serão quatro (04) princípios basilares para se mediar a estatura científica de um determinado conhecimento ou área de estudo: 1) O objeto real de estudo; 2) O meio apropriado de estudo; 3) O método usado; 4) A meta suprema: a verdade.

1. O OBJETO DE ESTUDO. Existe objeto concreto de estudo? Qual é ele? Um elemento mitológico pode ser objeto de estudo, apesar de ser crido por muitos? Obviamente que não, pois é fruto da mente humana. O mito não existe concretamente. Se esse pressuposto científico é verdadeiro, então, Deus não é verificável. Deus é maior e além da criação. Creia ou não nEle o ser humano, Ele existe e é inalcançável. Não há como prová-Lo, pois Ele existe fora da subjetividade daquele que tenta defini-Lo. Ele só pode ser conhecido na medida exata da Sua autorrevelação. Ele estabeleceu suas leis, suas regras e, claramente, só pode ser objeto de estudo total à medida que Ele mesmo o permite. Então, humana e cientificamente falando, Ele não pode ser objeto de estudo.

“Theós” (Deus, no grego) + “logos” (palavra que revela) e, por extensão “logia” (estudo). Assim, teologia é estudo sobre Deus e não “ciência de Deus”. Pode o tangível pesquisar o intangível? Pode finito pesquisar o eterno? Pode o pecador pesquisar o santo? Afinal, foi Deus que chamou a existência a todas as coisas. Ora, Deus está muito acima de qualquer conhecimento humano, sendo inatingível. Indo para a Bíblia, que é a palavra da autorrevelação, há de se notar que, embora sendo Deus criador, mantenedor e sustentador de tudo, Ele é um ser pessoal e, por isso, se torna acessível ao se comunicar com suas criaturas. E onde Ele se comunica? Ou, como Ele se comunica? Antes de qualquer coisa, por meio das Escrituras. Nelas estão registradas as Suas revelações ou autorrevelações. Assim, as Escrituras são ou devem ser o objeto de pesquisa, de investigação, de estudo. Ao fazer isso, a criatura poderá conhecer o criador, à medida da permissão dEle.

Um dado interessante. Nas ciências de forma geral, a estudioso se debruça sobre o objeto do seu estudo e o estimula a respostas dentro das leis da natureza. Na teologia, contrariamente, o objeto de estudo está além e acima do estudioso. O pesquisador é dependente do investigado (sic) para ter qualquer informação, pois estas são lhe dadas pelas Escrituras inerrantes e pela ação suprema e independente do próprio Deus, por meio do Seu Espírito. Na ciência, o pesquisador controla o objeto. Na teologia é, exatamente, o contrário.

2. O MEIO APROPRIADO. Não existe ciência sem os meios em conformidade com o objeto. Portanto, o meio para se estudar teologia é diferente para a matemática, diferente para física ou qualquer outra ciência. Ora, se a teologia defende que Deus é ser pessoal, então, o meio apropriado é o pessoal, ou seja, apropriado para o ser humano. Nas ciências, os objetos são observáveis empiricamente, ou seja, o conhecimento vem da experiência e é limitado àquilo que pode ser captado do mundo externo pelos sentidos; ou do mundo subjetivo, pela introspecção. Portanto, o empirismo é a atitude de quem se atém a conhecimentos práticos.

Cientificamente os estudos acontecem por observação, por medição e, modernamente, por computação. Na teologia, onde os dois lados são pessoas, o meio apropriado é a comunicação entre as partes. E, na comunicação, obrigatoriamente há dois elementos: o comunicador e o receptor. Ambos precisam ser claros, objetivos, inteligíveis, confiáveis. Aqui, aparentemente, um beco sem saída: confiança mútua. Como se confiar sem conhecer o objeto? O conhecimento é que adentra na intimidade. Nas questões teológicas é preciso que o estudante, o pesquisador tenha conhecimento e plena confiança naquele a quem pesquisa. A isso, a Bíblia chama de FÉ. Por isso, o autor aos hebreus diz: “Sem fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima precisa crer que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam” (11:6 NVI). Por isso, na teologia, o elemento fé é essencial para que se alcance o conhecimento possível de Deus. Sem crer em Deus, não há como conhecê-lo. Ele vai se desnudando, pela Palavra, à medida do aumentar da fé e o conhecimento vai aumentando. O conhecimento de Deus só é confiável quando há fé. O contrário produz distorções insanáveis. 

3. O MÉTODO. Do grego methodos (caminho ou via) é o meio utilizado para que se chegue ao fim. É o caminho que conduz a alguma coisa. Cientificamente é o conjunto de passos que devem ser seguidos por uma ciência visando alcançar determinado conhecimento válido e verificável por instrumentos confiáveis. O rigor científico do método é que descarta a subjetividade pessoal.  Ora, como sistematizar uma ciência sem dados tangíveis? Que método usar se não existir o objeto de forma tangível? Aqui, agora, se está usando a linguagem científica e não a da fé. Não existe método sem o objeto e sem o meio apropriado. Obviamente, o que se está dizendo é que o rigor científico das ciências da razão não são totalmente aplicáveis à teologia, independente de ela ser ou não ser ciência. Por isso, o pesquisador de teologia precisa usar de todos os métodos disponíveis para seu estudo, sabendo que, por fim, sua fé se sobrepujará à razão. Algumas observações: a) Em Mateus 16 Jesus faz uma solene pergunta aos discípulos: “... Quem os homens dizem que o Filho do homem é" (vs. 13 NVI)? As respostas contém aquilo que tinham ouvido do povo: João Batista, Elias, Jeremias ou algum outro profeta. Pedro se apressa a fazer uma afirmação de fé e, também, teológica: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (vs. 16 NVI). O próprio Jesus afirma a Pedro que sua resposta foi revelação do Pai. Independente das ciências humanas, a teologia como estudo, só irá declarar o seu escopo com o elemento teológico da fé. Não existe método teológico fora da fé. A teologia, portanto, é voltada para a experiência de fé de cada pessoa, de cada pesquisador. É preciso diálogo, confiança/fé e comunicação entre as duas partes. Uma investiga, a outra se deixa investigar... enquanto lhe aprouver. Em havendo investigação/estudo baseada no relacionamento confiável entre as partes, pode-se sugerir um modelo (não método, pois este é inflexível): investigação e interpretação da história bíblica, a dialética (no sentido de debate entre os comprometidos com a busca da verdade), os fundamentos imutáveis, as doutrinas convergentes, a sistematização elaborada e a comunicação das descobertas. 

Todavia, há que se estabelecer critérios claros na busca do método. Aqui estão algumas sugestões: Há coerência com a verdade bíblica? Tem respaldo histórico com a comunidade apostólica e com a igreja primitiva? É coerente com a fé bíblico-cristã? É conciliável com a razão, sem ferir a fé? É aplicável às pessoas e às igrejas hodiernas sinceras? Isso é assunto para um livro, portanto, não caberia aqui. 

4. A META ÚLTIMA: A VERDADE. O dicionário diz que “verdade é a propriedade de estar conforme com os fatos ou a realidade” (HOUAISS). Nem sempre os fatos condizem com a realidade e nem esta com aqueles. Talvez por isso, há tantos que afirmam que não existe verdade absoluta. É uma questão filosófica. Entretanto, na teologia bíblica, verdade só existe uma. Jesus se auto afirmou ser a verdade (Jõao 14:6). 

A procura do cientista é, sempre, pela verdade... mesmo que seja a sua verdade. O grande problema na busca dessa verdade científica é a possibilidade de entrar, nessa busca, as pressuposições do pesquisador. Fatalmente o resultado será controlado. Embora a ciência pregue que todo cientista precisa se despir de suas pressuposições, isso é totalmente impossível. Principalmente em uma ciência onde a fé sobrepuja a razão... embora as duas devam andar de mãos dadas e apertadas. Assim sendo, o pesquisador teólogo não pode permitir que “suas verdades”, portanto, pressuposições; aviltem sua pesquisa. Ao se deparar com a “verdade última”, é preciso exprimi-la, comunicá-la limpidamente; mesmo que isso signifique abrir mão de suas pressuposições dogmáticas. Afinal, é Deus que se comunica ao pesquisador por meio da Sua Palavra e das pesquisas. As Escrituras só podem corroborar/confirmar a pesquisa e nunca ao contrário. A autorrevelação divina e a fé pessoal são dois elementos essenciais na pesquisa. Sem a autorrevelação de Deus não há teologia, não há fé, não há pesquisa sustentável. Entretanto, se houver esses dois elementos (autorrevelação e fé), a teologia é confiável, até como ciência. Sem a autorrevelação e a fé, não há que se fazer teologia.

Fazer teologia significa buscar a verdade última. E essa verdade só virá de Deus, se houver fé na Sua autorrevelação exarada nas Escrituras. Então, só haverá teologia no sentido verdadeiro do termo, se o cientista crer verdadeiramente naquilo que Deus se autorrevelou aos homens pelas Escrituras, por mais paradoxal que possa parecer. 

CONCLUINDO. É importante colocar que fazer teologia séria pressupõe que o objeto da pesquisa seja as Escrituras Sagradas porque é nelas que o Deus eterno se autorrevelou à medida do seu querer soberano. Significa que o estudioso vai trabalhar e se comunicar com aquele que não é limitado pela falta de conhecimento (Onisciência); que não é limitado pela falta de espaço (Onipresente); que não é limitado pela falta de poder (Onipotente). O grande objetivo e desafio não é alcançar a verdade dos fatos ou do objeto e sim compreender e interpretar A VERDADE ABSOLUTA, O CONHECIMENTO ABSOLUTO, O PODER ABSOLUTO. O verdadeiro teólogo é aquele que absorve, interage e comunica um conhecimento que já está organizado, sistematizado, hierarquizado com mandamentos e leis próprias emanadas do Eterno. Este só vai mergulhar profundamente nesse conhecimento sem fim. Esse é o tipo de conhecimento que não admite ser falseado; pois, não é possível sua verificação científica pelo objeto; ao mesmo tempo, é facilmente verificável pela autorrevelação de Deus nas Escrituras Sagradas. Se as Escrituras não afirmam, então, não é verdadeiro. Isso é teologia. Ciência pura de Deus! Amém.
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BOYER, Orlando S. Pequena Enciclopédia Bíblica. Teologia, p. 603, 1986
BRANDT, Hermann. Por que teologia “científica”? Estudos Teológicos, v. 12, n. 2, p. 94, 1972

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Só ELE manda! A SOBERANIA DE DEUS. Série Doutrinas (I)


Começa, neste texto, uma série de artigos sobre doutrinas especiais para os cristãos. Este autor gosta – e muito – de explicar termos. O dicionário Houaiss traz algumas definições. Por exemplo: “soberania é a qualidade ou condição de soberano; superioridade derivada de autoridade, domínio, poder; autoridade moral, tida como suprema”. BOYER, Orlando em sua Pequena Enciclopédia Bíblica traz: “Autoridade Suprema”. Biblicamente, Deus (JAVÉ) é o SOBERANO ABSOLUTO; pois, foi Ele que a tudo criou (Salmo 24). Um dos textos mais profundos sobre a soberania de Deus é o de Jeremias 10:10-16. Os versos 10-13 afirmam: Mas o Senhor é o Deus verdadeiro; ele é o Deus vivo; o rei eterno. Quando ele se ira, a terra treme; as nações não podem suportar o seu furor. "Digam-lhes isto: ‘Esses deuses, que não fizeram nem os céus nem a terra, desaparecerão da terra e de debaixo dos céus’.” Mas foi Deus quem fez a terra com o seu poder, firmou o mundo com a sua sabedoria e estendeu os céus com o seu entendimento. Ao som do seu trovão, as águas no céu rugem, e formam-se nuvens desde os confins da terra. Ele faz os relâmpagos para a chuva e dos seus depósitos faz sair o vento”.

Para melhor entendimento humano, a Bíblia usa bastante a linguagem antropomórfica (atribuição de características humanas como membros do corpo e atividades físicas a Deus). Não poucas vezes o antropomorfismo é acompanhado de antropopatismo (atribuição de emoções humanas, paixões e desejos humanos a Deus). Assim, ambas as palavras são usadas teologicamente para enfatizar Deus se expressando em forma e sentimentos humanos, para que este pudesse entender. 

Portanto, ao pensar sobre a soberania de Deus, pode-se afirmar que é o Seu poder e domínio sobre toda a criação, pois, tudo que existe está sob o seu domínio e poder. Absolutamente nada acontece sem a expressa permissão de Deus e nada pode impedir que Ele cumpra suas promessas e planos eternos.  O salmista assim se expressa sobre isso: “O Senhor desfaz os planos das nações e frustra os propósitos dos povos. Mas os planos do Senhor permanecem para sempre, os propósitos do seu coração, por todas as gerações”. (Salmo 33:10-11 NVI). Ele é, pois, o Soberano, o Rei Eterno, Autoridade Suprema sobre tudo e todos no universo. É Ele que estabeleceu todas as leis da natureza e elas são imutáveis. É ele que garante a aplicação das leis e da justiça. Portanto, Ele é aquele que, se quiser, interfere em tudo quando melhor lhe aprouver. Por isso, cabe ao ser humano ser e estar submisso a Ele, o soberano. 

Estes alfarrábios pretendem ser práticos. Um texto para ser analisado e aplicado de forma prática no relacionamento do Soberano Deus com os homens mortais, é o de Tiago 4. No verso 6 lê-se: Mas Ele nos concede graça maior. Por isso diz a Escritura: "Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes". O orgulho tem a ver com egoísmo, com dar valor que não se tem... a si próprio. O soberano Deus, portanto, se opõe aos orgulhosos, àqueles que se valorizam e não reconhecem a soberania de Deus. 

Tiago (irmão de Jesus) vai ser prático no confronto da soberania de Deus com o orgulho humano. O Apóstolo diz: Ouçam agora, vocês que dizem: "Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro". Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: "Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo". Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna. Pensem nisto, pois: Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado (Tiago 4: 13-17 NVI). Tiago vai mostrar como deve ser encarada a absoluta soberania de Deus e isso fará absoluta diferença prática na vida cristã. 

No verso 4, Tiago chama esses cristãos orgulhosos de “adúlteros espirituais”. E aperta o acelerador ao enfatizar que esses cristãos jactavam-se de amar a Deus acima de todas as coisas; mas, na prática, amavam este mundo e seus prazeres e, por isso, suas orações não eram respondidas. No verso 6 enfatiza o orgulho e a soberba e que Deus, o soberano, a estes resiste... mas, favorece aos humildes. Por isso, no verso 10 ele faz o apelo para que seus leitores se humilhassem na presença do Senhor, para que pudessem ser exaltados.

Ele passa, então, a tratar essa soberba ou orgulho sob ótica bem prática. Um dos temas centrais da carta de Tiago é o mau uso da língua (fofocas, maledicências, etc.). Ele é direto e objetivo: “não falem mal uns dos outros”, pois isso é um tipo de julgamento (soberba, orgulho). Afinal, o único juiz espiritual é Deus, o soberano... que pode “salvar e destruir”. E pergunta com desdém: “... quem é você para julgar o seu próximo”? 

Na mesma linha de raciocínio sobre Deus e a nulidade humana Tiago faz algumas observações profundas no verso 13, sobre essa arrogância em claro contraste com a soberania de Deus: “hoje ou amanhã... iremos, passaremos, faremos”. E onde fica a soberania de Deus?  Em outras palavras “eu vou, eu passarei, eu farei” ou “nós iremos, nós passaremos, nós falaremos”. Isso é antropocentrismo (homem no centro das coisas). E a soberania de Deus? Que autoridade tem o ser humano, cristão ou não, para tomar decisões de para onde vai? O que vai escolher? Onde se hospedará? Quanto tempo ficará fora? Que tipo de negócios fará? Quanto lucrará? Quem é o ser humano para tomar essas decisões? E onde fica Deus, o soberano?

Afinal, “Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa” (vs. 14). Ele está afirmando duas verdades: 1. A brevidade da vida; 2. A ignorância, a estultícia daquilo que estão dizendo. Ninguém sabe o que virá amanhã, nem se alguém estará vivo. Ninguém sabe se terá vitórias e ou lucros em suas empreitadas. Só o Deus soberano tem o controle de tudo. O amanhã é um senhor desconhecido para todas as pessoas... menos para o soberano Deus, criador, mantenedor e sustentador de todas as coisas. Só Deus e seu kairós (tempo de Deus), tem o controle de tudo.

Depois de puxar a orelha de seus leitores, Tiago vai ensinar a maneira correta do cristão temente a Deus pensar e agir. No verso 15 ele diz: Ao invés disso, deveriam dizer: "Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo". Ao invés de antropocentrismo... teocentrismo. Deus é o centro e o soberano. Nunca, jamais... o homem. “Se o Senhor quiser, eu farei”; “se o Senhor quiser, viverei” e assim por diante. Tudo depende de Deus. É um estado permanente de reconhecimento da soberania de Deus. O Salmo 139 declara que Deus conhece o ser humano desde o ventre da sua mãe e estabeleceu todos os seus limites... porque Ele é soberano. Jamais o pensamento do cristão deve ser: “eu faço, eu penso, eu vou, eu lucro, eu...”. “SE DEUS QUISER... eu faço, eu penso, eu vou, eu lucro...”. Nada mais... Ele é soberano! 

O fato do cristão não viver focado na soberania de Deus e, em consequência, não viver uma vida na dependência dEle e sob a orientação dEle, torna os atos e pensamentos do ser humano pecador, algo que Tiago chama de vanglória; portanto, maligno: Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna (4:16 NVI). Assim, tudo que o cristão pensar ou fizer deve ser sob a ótica da soberania de Deus, ou seja, “SE O SENHOR QUISER...”

Para encerrar, pense seriamente nisso: tudo, inclusive a morte de Cristo foi planejado por Deus na sua soberania. Assim, como servos dEle, compete ao cristão se submeter à Sua Soberana Vontade. Veja o que escreveu Lucas (Atos 4:27-29) quando da ousadia de Pedro e João diante do Sinédrio e a consequente reação da igreja: “De fato, Herodes e Pôncio Pilatos reuniram-se com os gentios e com os povos de Israel nesta cidade, para conspirar contra o teu santo servo Jesus, a quem ungiste. Fizeram o que o teu poder e a tua vontade haviam decidido de antemão que acontecesse. Agora, Senhor, considera as ameaças deles e capacita os teus servos para anunciarem a tua palavra corajosamente”. “... de antemão”, ou seja, tudo estava nos planos soberanos de Deus. 

Diante da soberania de Deus, pediram apenas uma coisa: “capacita os teus servos para anunciarem a tua palavra corajosamente”. Qual a consequência? O que aconteceu? “Estende a tua mão para curar e realizar sinais e maravilhas por meio do nome do teu santo servo Jesus. Depois de orarem, tremeu o lugar em que estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciavam corajosamente a palavra de Deus. Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles” (Atos 4:30-33 NVI).

Observe as consequências de se entender e praticar a Soberania de Deus na vida. Veja os destaques no texto de Atos 4:30-33: Curar, sinais e maravilhas, tremer o lugar pela presença marcante do Espírito Santo de Deus, ter tudo que tinham em comum e o anúncio corajoso da palavra de Deus. 

Porventura, não está faltando hoje em nossas igrejas o reconhecimento da SOBERANIA DE DEUS e a consequente submissão de cada pessoa à VONTADE SOBERANA DELE? Amém.


domingo, 7 de abril de 2019

FILHOS E PAIS! DUAS GERAÇÕES DE DESCONHECIDOS! (O Reino dos Céus e as Crianças) – Parte 3

Uma das coisas mais faltantes na criação dos filhos nos dias atuais é a disciplina. O dicionário Houaiss diz que o substantivo feminino disciplina tem os seguintes significados: obediência às regras, aos superiores e a regulamentos. Como derivação por extensão de sentido o dicionário traz: comportamento metódico, determinado, constância. Biblicamente, o sentido é o de comportamento metódico, determinado, constância; o que, evidentemente, leva para o sentido de treinar ou treinamento. Portanto, não é sinônimo apenas de punição. Tem a ver, e muito, com instrução, educação... e não a crueldade. Veja Provérbios 4:1-6.

Uma boa ilustração compara disciplina com a jardinagem. O profissional aduba o solo, nutre e rega diariamente a terra e, se preciso for, coloca veneno contra pragas, insetos e outras ervas que possam ser daninhas. Muitas vezes, ao verificar sua planta, o jardineiro precisará podar, arrancar alguns galhos doentes e outros cuidados mais. O que ele visa? Que a planta cresça saudável e para o alto. Isso exige métodos corretos, adubos corretos, ferramentas corretas... enfim, disciplina, até que a colheita venha. Isso dá trabalho e, quase sempre, tem elevado preço.

Os filhos são como essas plantinhas que precisam ser adubadas, regadas, podadas, cuidadas com disciplina e tenacidade. Os frutos gostosos fazem valer a pena todo esforço. Portanto, sem disciplina com muito esforço, jamais os frutos serão seletos, gostosos, prazerosos. Além de toda técnica, ferramentas corretas, disciplina, podas... o principal de toda essa disciplina é que o jardineiro faz isso POR AMOR. A adubagem não pode ser exagerada, a água precisa ser na medida certa, a poda terá que ser cuidadosa pra não arrebentar e causar danos irreversíveis às plantas. O remédio para isso se chama amor.  Em outras palavras, toda disciplina deve ser aplicada de forma correta e, principalmente, com muito amor para que os frutos venham saborosos.

Deus, sempre que necessário, disciplina os seus filhos... mas, com amor (veja Hebreus 12:1-11). No verso 11 se lê: “Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados” (NVI). Deus sabe disciplinar... afinal, ele é Pai exemplar. Todo pai e mãe deveria se espelhar em Deus, o Pai, para exercer a disciplina. A disciplina correta produz “fruto de justiça e paz”. Entretanto, o final do verso afirma que esses frutos são para “aqueles que por ela (a disciplina) foram exercitados”. O sentido aqui é de exercício, treinamento... duro e contínuo. Esse é o grande problema dos pais modernos. Não praticam a disciplina correta, permeada com amor, com entusiasmo; como se fosse treinamento diário em academia. Por quê? Dá trabalho, é cansativo, tem que ser diária. Disso depende o tipo de fruto que há de se colher: de justiça e paz ou de tristeza, amargura, choro. Aproveite e leia com atenção Provérbios 4:13 e 12:1.

É a disciplina com amor que forja o caráter dos filhos. Caráter o conjunto de traços morais, psicológicos, sociais, espirituais, etc.; que fazem a distinção entre uma pessoa e outra. Dele depende o temperamento, a firmeza de atitudes, a índole pessoal de cada pessoa. Portanto, o caráter – sem a transformação que só Cristo pode fazer – não é uma escolha pessoal cognitiva de qualquer pessoa... mas, é uma formação forjada (treinamento ou disciplina) ao longo dos primeiros anos de vida e que, normalmente, vem a reboque da necessidade individual de autoproteção do meio externo. O primeiro teórico a se preocupar em formular uma teoria coerente do caráter foi Wilhelm Reich, independente de fé cristã. Ele, após suas pesquisas afirmou: “o caráter consiste numa mudança crônica do ego que se poderia descrever como um enrijecimento” (Reich, 1989, p. 151). Assim, toda boa disciplina depende de formação de hábitos saudáveis. Hábito, nada mais é do que aquilo que se aprende pela repetição (treinamento, disciplina). A junção de hábitos, pensamentos e sentimentos forjados ao longo dos anos, forma o caráter. Assim, pais, se você quer produzir filhos que sejam bênçãos para eles mesmos, para vocês, para a sociedade e para Deus... antes de tê-los, pensem seriamente na necessidade de discipliná-los/treiná-los com muito amor e esforço. Muitas vezes será necessária a poda... mas, isso é absolutamente necessário e inevitável. Releia Hebreus 12:1-11.

A psicologia ensina que durante os dois primeiros anos de vida, normalmente, a criança aprende cerca de 75% de tudo aquilo que introjetará para seu futuro. Diz também, que, normalmente, o caráter está pronto e forjado até os sete anos. Importante salientar que a maior parte do caráter (as idiossincrasias pessoais) é forjada por meio daquilo que eles observam (os atos) nas pessoas que admiram e amam... normalmente os pais, familiares e professores. O que é que os seus filhos estão vendo?  Atos positivos ou negativos? Eles precisam ver e sentir hábitos positivos nas pessoas a quem amam, tais como: amor, carinho, confiança, respeito, autoridade, cooperação entre os pais, zelo para com as coisas de Deus, cumplicidade... e muito mais.

O grande evangelista Dwight Mood, como ninguém, definiu o que é o caráter positivo. Ele afirmou que “caráter é aquilo que você é no escuro”. Claramente, caráter se revela na conduta... que tem que ser a mesma em qualquer situação, até no escuro onde ninguém está vendo. Nenhum fruto é mais saboroso do que saber que o filho foi criado com tal disciplina. Todos sabem que a formação do caráter não é exclusividade dos pais. Ela é afetada, acima de tudo, pelos pais... mas, também, pela escola, pela sociedade e por todos os relacionamentos ao longo da vida, principalmente nos primeiros anos de vida. Por isso, a necessidade dos pais forjarem o caráter dos filhos, para que a sociedade ímpia não possa exercer muita influência na formação do caráter dos filhos.

O que se quis dizer com tudo isso é que os pais são responsáveis, diante de Deus e da sociedade, pelo tipo de filhos que deixarão para o mundo. Eles serão frutos saborosos ou amargos? Amor e disciplina são os ingredientes que forjarão o caráter, inclusive, espiritual... dos filhos. Por isso, mãos à obra mesmo antes de tê-los. É preciso preparo, oração, dependência de Deus... e a certeza de que isso custará muito trabalho.

Querendo ajudar os pais nesse mister, a seguir estão algumas sugestões para abençoar (ou não) os pais que queiram ter um pouco de trabalho. Veja o que diz a Palavra de Deus sobre o assunto: “Pois o mandamento é lâmpada, a instrução é luz, e as advertências da disciplina são o caminho que conduz à vida” (Provérbios 6:23 NVI) e, também “Não evite disciplinar a criança; se você a castigar com a vara, ela não morrerá. Castigue-a, você mesmo, com a vara, e assim a livrará da sepultura” (Provérbios 23:13-14 NVI). “Castigar” aqui, jamais significa machucar e deve ser o último recurso. Todavia, ele é necessário, muitas vezes. Então, se quiser, adote um CÓDIGO DE CONDUTA entre vocês pais; e seus filhos. Façam 4 blocos de regras de conduta, conforme modelo abaixo.

Nos blocos, aliste as regras, castigos e métodos disciplinares combinados. Quando os pais chegarem a um acordo escrito, mostre o código de conduta a seus filhos (lembre-se que um filho é diferente do outro). Explique-o a eles.  Pergunte a cada um se tem dúvidas ou sugestões.  Introduza quaisquer modificações com que ambos (pai e mãe) concordarem de coração e razão.   Pai/mãe = autoridade final e não podem aceitar sugestões que não estão de acordo ou que não melhorarem o código. Agora, é Código em ação. Poucas regras por vez. O mais importante é VIGIAR O CUMPRIMENTO das regras e CASTIGAR/DISCIPLINAR todo descumprimento, um por um. Cópias do código devem ser colocadas em todos os lugares apropriados. Isso ajuda a memorizar.


PROGRAMA APRENDA UM/GANHE UM!

Numa reunião de família, os pais devem explicar aos filhos o programa “aprenda um/ganhe um”. O princípio é o de que “a responsabilidade leva ao privilégio de uma maior responsabilidade”.  Os pais devem pedir a cada filho que faça uma lista dos privilégios que gostaria de receber. Depois, cada um dos filhos deve selecionar cinco deles e escrevê-los nas lacunas ao lado dos números pares.  A seguir, os pais devem alistar nas lacunas ímpares as responsabilidades que querem que o filho aprenda/cumpra. Ambas as listas devem partir do mais fácil para o mais difícil. Dê o tempo necessário para que cada filho faça sua lista. A possibilidade de subir os “degraus” até o mais elevado e desejado oferece um forte incentivo.

É importante que nenhum privilégio seja concedido antes que cada responsabilidade seja totalmente cumprida e demonstrada durante um tempo especificado no programa. Cada degrau só será vencido com a demonstração do cumprimento durante o tempo especificado no programa. Jamais passar para outra responsabilidade ou privilégio do degrau acima, sem que a anterior esteja totalmente concluída!


IMPORTANTE: Isso só tem valia e fará diferença... se os pais agirem da mesma forma e fizerem cumprir o código/programa totalmente.

Até o próximo texto. Amém!

CARNAVAL 2020! O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA!

Neste artigo vou ser mais intimista. Vou usar o pronome na primeira pessoa. Normalmente não falo ou escrevo sobre aquilo que não sei, ...